SÃO GREGÓRIO PALAMAS E A ESSÊNCIA DO HESICASMO
JEVTICH Atanasije, Vladika
tradução de monja Rebeca (Pereira)
O texto a seguir foi traduzido de uma palestra proferida por Sua Graça, Atanasije (Jevtich), Bispo Emérito de Zahumlje e Herzegovina (Igreja Ortodoxa Sérvia), no Seminário Sretensky, em Moscou, em 1º de novembro de 2001.
Hoje falaremos sobre São Gregório Palamas e a essência do hesicasmo. O Concílio de Constantinopla, em 1351, realizado há 650 anos, afirmou clara e definitivamente a experiência e a teologia do hesiquiasmo. O primeiro concílio desse tipo havia se reunido dez anos antes, em 1341, no qual Palamas e seus monges athonitas apresentaram o Tomo Hagiorítico, no qual expuseram a essência de sua experiência e de sua confissão teológica contra Barlaão. Posteriormente, em 1347, outro Concílio se reuniu, desta vez contra Akindynos; naquela época, Barlaão já havia partido e se tornado cardeal, bispo do Papa, após o que assumiu a luta contra a teologia hesicasta.
Portanto, a respeito da experiência teológica e da justificação do hesicasmo:
O hesicasmo, é claro, não é um fenômeno novo. Encontraremos no livro do Arcebispo Basílio (Krivoshein), bem como no do bizantólogo russo, George Ostrogorsky, que viveu conosco [na Sérvia] e teve uma carreira brilhante, dando importância significativa à bizantologia sérvia. Ele próprio era russo, mas teve muitos alunos, incluindo gregos. Ele escreveu sobre esse assunto por volta de 1936, mais ou menos na mesma época que o Hieromonge Basílio (Krivoshein), até um pouco antes.[1]
O hesicasmo é uma vida de oração, uma vida com amor; ao mesmo tempo, é uma vida mistagógica e litúrgica na qual, após a purificação das paixões, alcança-se uma experiência e um sabor profundos: a visão da glória e da graça de Deus. Não é simplesmente um meio de preparação para a oração, como Barlaão pensara inicialmente e até mesmo certos monges ignorantes explicaram, na qual se deve encostar a cabeça no peito, acompanhar a respiração e olhar para o umbigo. Isso é um absurdo, e São Gregório Palamas o criticou. É claro que é essencialmente para se concentrar, mas isso não é meditação. Não é meditação, mas um aprofundamento na oração, para que a mente desça ao coração, que é a profundidade do ser humano. Como disse o Salvador: Porque do coração procedem os maus pensamentos (Mateus 15:19).
O coração sempre foi considerado o centro da vida volitiva e sensual, sendo a mente o centro racional do pensamento. O Salvador sabia do que falava; Ele conhecia o homem. E o coração é muito mais do que apenas o centro volitivo ou sensorial: é o próprio cerne do ser humano. Quando o Salvador disse: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus (Mateus 5:8), isso significa que não apenas os sentidos ou a vontade são purificados, mas a pessoa inteira. Isso inclui, é claro, também o corpo humano, e até mesmo o coração físico. Fiquei surpreso quando um médico me disse: “Sabe, nos últimos tempos, reconhecemos o importante papel que o coração desempenha no sistema nervoso humano.” E eu disse: “Onde você esteve até agora? Eu sabia disso mesmo sem você!”
Ou considere outro órgão, como o estômago. Ele também tem uma profunda influência na vida nervosa e psicológica de uma pessoa. Repito: “Nós também sabíamos disso.” Quando se está em extremo sofrimento, pode acontecer (e aconteceu comigo uma vez) que surja uma forte vontade de vomitar; o estômago convulsiona. Ou seja, existe uma forte ligação entre a vida física e a nervosa.
O coração é a totalidade de uma pessoa. O homem se aproxima, e o coração é profundo (Salmo 63:7, LXX), diz o salmo de forma tão breve e concisa. Portanto, se alguém orar apenas em sua mente, essa oração será superficial, apesar de a mente ser um órgão profundo da pessoa humana, de sua alma. Mas somente quando a mente está unida ao coração, ela pode funcionar adequadamente. Tal é a conexão dos órgãos, da constituição psicofísica da pessoa humana. Foi assim que Palamas e os Padres hesicastas falaram sobre isso.
Há uma homilia sobre a oração atribuída a São Simeão, o Novo Teólogo, que, de fato, não lhe pertence. Lá, fala-se de atenção (prosochi) e oração (prosefchi). Efchi significa súplica ou oração, e pros- significa aproximar-se, como por exemplo em "pisar" [stupit'] e "subir até" [pristupit']. O mesmo ocorre com prosefchi. E prosochi também tem o significado de estar perto de algo, de atenção a algo ou alguém, de estar perto dele.
A atenção, meus queridos, é muito importante na vida humana. São Basílio corrigiu a sabedoria grega. Em Delfos, havia uma inscrição, supostamente da profetisa Pítia, que dizia: "conhece-te a ti mesmo" (gnothi seauton). Sócrates e seus discípulos gostavam de repetir isso. Mas Basílio diz em uma de suas homilias que o homem não pode conhecer a si mesmo, mas pode estar atento a si mesmo. Isto é de suas homilias sobre Gênesis, quando Deus diz a Lot para deixar Sodoma e, ao fazê-lo, estar atento a si mesmo: Proseche se afton. Em vez de "conhece-te a ti mesmo", São Basílio o Grande diz: "sê atento a ti mesmo".
A pessoa atenta pode fazer muito mais por si mesma e dentro de si: antes de tudo, pode atrair a atenção de Deus, o amor de Deus, a graça de Deus. São Simeão, o Novo Teólogo, diz que é preciso lutar, rezar, chorar, arrepender-se e empreender trabalhos ascéticos – mas, ao mesmo tempo, reconhecendo que não são as lutas ascéticas que nos salvam, mas a atenção, os olhos de Deus, que nos veem nesta disposição e condição espiritual. É Ele, o Senhor, Quem nos salva. Através das lutas ascéticas, demonstra-se simplesmente que se deseja a salvação e que se está dispondo a ela, isto é, que se está atento a ela.
No Antigo Testamento, atribui-se maior importância ao sentido da audição. Os gregos antigos sempre enfatizaram o sentido da visão: tudo é maravilhoso; em toda parte há beleza, kosmos [ornamento, ordem]. Há uma boa série de livros sobre isso de Losev: História da Estética Clássica.[2] Toda a filosofia grega se resume à estética. Florovsky escreve que esse também era o caso na filosofia russa do século XIX, mesmo para Soloviev. Tal é a tentação da estética, que tudo deve ser belo.
É claro que isso não nega a importância da visão na Sagrada Escritura. Por exemplo, aqui estou eu dando uma palestra e olhando para você. Quem está mais atento – é a pessoa que está olhando para mim? É claro que se pode olhar estando ausente. Quando éramos meninos – éramos seis –, minha mãe de repente me dizia, por exemplo: “Onde você está? Para onde você foi?” “Não, eu estou aqui.” Mas ela viu que eu “tinha ido embora”, mesmo estando olhando para ela. Mas se alguém presta atenção ao som, não pode estar ausente. A pessoa está mais concentrada quando presta atenção ao som. E assim diz São Basílio: "Sê atento a ti mesmo."
A luta ascética consiste em orar mais profundamente dentro de si mesmo e em se concentrar. Os Padres falaram certa vez de dois monges que caminhavam para a igreja. Um deles repetia constantemente: "Ó Vinde, adoremos e prostremo-nos diante de Cristo... Ó Vinde, adoremos..." O outro não se conteve e perguntou: "Por que você não lê os Salmos, mas fica sempre repetindo isso?" O primeiro respondeu: "Estou convocando todos os meus sentidos para que se unam em adoração a Cristo."
A propósito, de acordo com Gregório, o Sinaíta – e Simeão, o Novo Teólogo, já havia falado sobre isso – a queda do homem consistiu em sua dispersão: seus sentidos, pensamentos, vontades, desejos – cada um puxa o corpo em sua própria direção. A graça é como um bom coordenador. Assim, em alguns governos, há os ministros de tal e tal coisa, e depois há o ministro da coordenação, da comunicação, que os conecta a todos. A graça do Espírito Santo nos une, tornando-nos uma só pessoa. E, de fato, quando alguém sente e recebe a dádiva de Deus, imediatamente se torna um, unificado dentro de si. É isso que o hesicasmo afirma.
O propósito, ou plenitude, é a manifestação da graça de Deus: que alguém, com todo o seu ser, não apenas a sinta, mas também a saboreie e até a veja. Os hesicastas diziam que viam a mesma luz que os Apóstolos no Tabor; diziam que essa luz é Divina; que essa luz é energia Divina, que pode ser distinguida, mas não separada da Divindade. Portanto, quando a graça Divina chega, Deus chega – mas Ele está presente em Sua energia, e não em Sua essência. E, claro, Sua presença é pessoal, porque a essência é sempre a essência de alguém, e a energia essencial é igualmente a energia de alguém – é a atividade de sua natureza, de sua essência. Nisso, Palamas já confessava a plenitude da teologia triadológica.
Barlaão, como filósofo seguidor de Aristóteles, rejeitou isso, dizendo que tais categorias não podem ser distinguidas em Deus, porque o ser de Deus é simples (aplotis) e sem complexidade, e isso introduz complexidade. Palamas respondeu com muita inteligência: será que a Essência de Deus e Suas Hipóstases são realmente a mesma? Acreditamos em três Hipóstases e uma Essência. Isso de fato divide Deus? Isso torna Deus complexo? Não, Deus permanece simples. Assim, se confessarmos que Deus é tri-hipostático e onipotente (pantodynamos) – isto é, se Ele tem força, energia e poder – não criamos nenhuma complexidade n´Ele. Assim, Palamas falou na linguagem da confissão teológica, e não da filosofia. A fé dá sentido às palavras!
Os Padres fizeram o mesmo em tempos anteriores. Inácio de Antioquia disse aos judeus: “Temos arquivo, documentos, antiguidade, Sagrada Escritura”. Ele lhes disse: “Mas o que é antiguidade? Para mim, o arquivo é a Cruz, o Corpo e Sangue de Cristo, Sua morte e Ressurreição!” Parece paradoxal: por que isso é um arquivo para ele? Mas era um arquivo para ele: “Por que vocês estão me falando de papéis e até tábuas da Lei – e daí? Deus os quebrou. Mas quando sofro por Cristo, vivo e antecipo a bem-aventurança eterna.”[3]
Os Padres Capadócios disseram a mesma coisa: a fé dá sentido às palavras. Há um bom artigo de Lossky sobre isso, não em "A Teologia Mística", mas em algum lugar ele tem algo sobre a fé como princípio da consciência.
Barlaão rejeitou qualquer distinção – e, mais ainda – qualquer divisão em Deus, afirmando apenas a simplicidade eterna. Segundo ele, os santos lá [no céu] participarão apenas da essência de Deus, enquanto aqui verão apenas a luz e a graça criadas como um dom criado, como habitus (hábito).[4] Isso significa que Deus, por assim dizer, cria pequenos pacotes ou caixas – assim como durante a nossa catástrofe na Sérvia, os americanos nos enviam ajuda humanitária: primeiro bombas e depois pacotes. Assim, Deus também supostamente distribui esses pequenos pacotes, a cada um à sua maneira – mas já está claro que esses pacotes ou presentes não têm nada a ver com Deus! Por sua própria natureza e conteúdo, tudo isso é externo, estranho, criado. O resultado é que não temos comunhão com Deus.
Ou aqui está outro exemplo: pense em uma jovem esposa, uma noiva, que é levada para casa, mas seu marido não a vê, não a ama, não mora com ela – mas todos os dias lhe dá pequenos presentes. Ela ficaria louca! Pense na novela de Dostoiévski, "O Manso", uma de suas peças mais belas. Cheguei a escrever um artigo sobre ela. A heroína não suportava esse "príncipe" que a havia casado: ele se amava acima de tudo, e ela não tolerava esse desprezo e essa humilhação.
Estamos chegando ao ponto mais importante. O que é salvação? É a união com Deus da forma mais próxima e íntima, assim como Cristo S e uniu mais do que intimamente à semente de Abraão: Ele também participou [paraplisios] da mesma (Hebreus 2:14). Plisios é "próximo" e plision é "vizinho". Mas paraplisios é ainda melhor, ainda mais do que simplesmente uma participação íntima em corpo e sangue. Alcançamos a participação mais íntima quando recebemos a Comunhão. Nas orações, diz-se: "Cristo! Ó Sabedoria, Verbo e Poder de Deus! Concede-nos que possamos participar mais perfeitamente de Ti." [5] "Mais perfeitamente" significa mais verdadeiramente, mais profundamente, mais participativamente. Isso também é o que paraplisios significa.
Assim, nos unimos a Deus. Mas que tipo de união é essa? De acordo com a essência? Então, desapareceríamos; seria panteísmo e deixaríamos de existir. Deus é tão poderoso em Sua essência. Seria como se jogássemos uma migalha de pão no fogo ou uma gota d'água no oceano. O que acontecerá com eles lá? Portanto, não se trata de uma união segundo a essência. A união hipostática em nossa natureza ocorre apenas na Pessoa de Cristo. Unimo-nos apenas à energia de Deus, graças à união hipostática de Cristo: Ele veio a nós e Se tornou o mediador (mesitis). “Intercessor” [khodatai] não é totalmente exato, porque um intercessor se coloca entre duas pessoas, como eu entendo esta palavra. “Mediador” [posrednik] também é um “intermediário” entre duas pessoas. Mas os Padres (por exemplo, Nicolau Cabasilas na época de São Palamas) dizem que é como se uma terceira pessoa tomasse duas pessoas e as unisse consigo mesma, e elas se tornassem uma só. Foi assim que Cristo, como Mediador, uniu Deus e o homem em um só ser.
Sempre nos falaram sobre a teoria de Marx de que o capital é o mediador entre os meios de produção (recursos naturais, etc.) e o trabalho. Marx era protestante, vindo de um ambiente protestante, e entendia a mediação dessa forma. O protestantismo tem a seguinte compreensão de um mediador: Deus nos enviou um embaixador para assinar um contrato entre Deus e nós. Não, esta não é a Encarnação da qual Santo Atanásio falou, e Irineu mesmo antes dele, e que Palamas repetiu. Cristo destruiu o muro de separação e Deus Se fez homem – o Deus-Homem. Isso significa que, graças à desumanização hipostática de Cristo, podemos participar da energia Divina, que é o conteúdo da vida Divina.
Todo ser e criatura possui energia. Até mesmo uma pedra possui a energia da gravidade e da força: uma pedra grande colocada em seu pé a pressionará. Esta é a energia da gravidade. Todo ser é qualificado, isto é, é caracterizado por características qualitativas; se essas qualidades forem removidas, nada restará – será uma entidade fictícia. Nesse sentido, energia é capacidade; a essência se manifesta com a ajuda de sua atividade.
Essa é a ontologia da energia Divina. Portanto, podemos participar da vida Divina, da vida em que Deus vive. O estado Divino – essa pericorese [morada mútua] entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo – é alegria, amor, luz e bem-aventurança. É disso que participamos, o que significa que participamos da Divindade.
Em certo momento, Palamas disse, de forma um tanto incauta, como o Areopagita, que a essência de Deus está "além" do ser (yperekeina) ou mesmo "supradivina" (ypertheos). Então, poder-se-ia dizer que a energia é, por assim dizer, a parte "posterior" ou "subjacente" (yfeimeni) da Divindade ("sobrejacente" é yperkeimeni). Mais tarde, quando lhe foi apontado que estava dividindo a Divindade, ele abandonou a distinção dessa "parte posterior". Tudo isso é uma única Divindade ativa, e a energia é o poder Divino eterno e incriado. Se Palamas estivesse vivo hoje, a física moderna lhe serviria muito bem.
Com isso, ele afirmou a realidade da salvação e a realidade da comunhão. Mas todos os escolásticos ocidentais ensinavam o que Palamas chamava de "graça criada" (gratia creata). Ícones peculiares começaram a aparecer na época dos escolásticos: você vê que os santos são terrivelmente gordos e têm uma espécie de círculo, como um arco, sobre suas cabeças; é uma auréola, mas não tem nenhuma conexão com o santo – pende sozinho. Os ortodoxos, no entanto, nem precisam pintar uma auréola: todo o fundo dos ícones ou afrescos já é dourado. Eles brilham, e o ouro está por toda parte.
Há um iconógrafo grego chamado Padre Stamatis Skliris, que estudou medicina e depois teologia, tornou-se padre, foi artista por um curto período e depois se tornou iconógrafo; ele expôs em Paris. Ele nos visitou recentemente. Ele é um bom iconógrafo, um dos melhores, na minha opinião; mesmo em teoria, superou [Leonid] Uspensky, que foi um bom teólogo e artista em Paris. Ele é um pintor e crítico de ícones e pinturas ocidentais. (Diz-se que, quando Picasso soube que uma de suas pinturas em uma exposição havia recebido o prêmio principal, respondeu: "Mas você a inverteu...")
O Padre Stamatis diz que o ícone ortodoxo é criado pela luz, enquanto o ícone ocidental é criado pela sombra. E, de fato, as pinturas ocidentais – até mesmo ícones e afrescos – desde a Idade Média têm sombras por toda parte. Enquanto nós, começamos com cores escuras – e depois luz, luz, luz! Isso já era verdade antes do hesicasmo, é claro, mas o hesicasmo o confirmou. Isso significa que a diferença [entre ícones orientais e ocidentais] não é apenas a perspectiva invertida, mas também que nossos ícones são tecidos de cor e têm estrutura de luz, enquanto os do Ocidente têm estrutura de sombra. De fato, é assim. Seria uma boa ideia traduzir o Pe. Stamatis.[6]
Isso significa que tudo é tecido e preenchido com luz: essa luz é a graça divina, o amor de Deus, a energia divina – e foi isso que os apóstolos viram. O que também é importante é que se pode ver essa luz até mesmo com os olhos do corpo, ainda que parcialmente. Palamas citou isso do tropário: “Quando foste transfigurado na montanha, ó Cristo nosso Deus, mostraste a Tua glória aos Teus discípulos até onde eles podiam suportar” – isto é, até onde eles podiam ver. Mas seus olhos também foram transfigurados de dentro para fora, para que pudessem receber a luz divina.
Barlaão raciocinou como um racionalista, como um humanista do período do Iluminismo ocidental. Máximo Gorki disse: “Estudai, crianças, dia e noite; conhecimento é luz, conhecimento é poder” (foi isso que nos ensinaram; é uma espécie de brincadeira). Ou seja, luz é conhecimento – ela “ilumina”. Makriyannis, um comandante grego que liderou a revolta, colocou de forma diferente. Quando os alemães chegaram, supostamente para trazer esclarecimento aos gregos retrógrados e conservadores, ele disse: “A luz que vocês trouxeram nos cega. Nós temos nossa própria luz, uma luz interior.” Estas foram as palavras de Makriyannis, um homem simples, mas um herói.[7]
Claro, o mesmo aconteceu conosco, sérvios. A iluminação é sempre superficial. Barlaão disse que esta é a luz da mente. Houve algum tipo de iluminação, algum tipo de inspiração – mas tudo foi criado.
Agora, novas ideias e novos horizontes se abriram para nós. As pessoas dizem: educação global, iluminação global! Mas para nós, como disse nosso Abba Justin [Popovich], a iluminação vem da santidade. Os santos são os verdadeiros iluminadores. Falamos de São Gregório da Armênia, Santa Nina da Geórgia, Santos Vladimir e Olga, Santos Cirilo e Metódio como nossos iluminadores. Com o que eles nos iluminaram? Com o Evangelho e o conhecimento de Deus. Isso significa que é o verdadeiro conhecimento de Deus e do Santo Evangelho que nos iluminam. Tal iluminação é muito melhor porque é eterna, incriada e Divina – ao contrário desta "iluminação mundana".
Claro, o conhecimento secular também é bom. Padres como Basílio e Gregório estudaram primeiro em escolas seculares – assim como Palamas estudou posteriormente em Constantinopla – e depois seguiram para a escola divina. Ou seja, essa luz também é boa, mas não é essencial – mesmo que possa ser útil. São Gregório, o Teólogo, disse: "É tolice lutar contra o conhecimento". Só os tolos querem que todos sejam como eles, dizendo que não é preciso estudar. Às vezes, ouve-se a mesma coisa entre monges: que não é preciso estudar na escola, que se pode tornar santo e iluminado sem esse estudo. Mas uma coisa não se opõe à outra; o importante é qual delas é priorizada.
Este é o realismo da experiência ortodoxa, demonstrado pela teologia que a revelou e justificou. Sempre foi assim na história da Igreja, como disse o Padre Georges Florovsky: a teologia revela e justifica aquilo pelo qual a Igreja já vive e que já possui. Nada de novo foi inventado em nossa fé; é o Papa que está sempre apresentando novos dogmas, resultando em grandes dificuldades.
Se a Mãe de Deus foi concebida imaculadamente, então não há pecado – então por que Ela morreu? O Papa, que afirmou o dogma [da Imaculada Conceição] no século XIX, falou depois da Sua ascensão, da Sua assunção ao céu, sem mencionar a morte: em vez de “Ela morreu”, disse: “o Senhor a levou para Si no céu”. Mas cremos que Ela morreu e que, depois de certo tempo, o Senhor A acolheu antes da ressurreição [geral]. Mas, na medida em que compreendo os Padres, Ela também ressuscitará plenamente na ressurreição geral. Ela está com o Senhor: este é o mistério da Mãe de Deus, uma espécie de antegozo do Reino e da Ressurreição.
Assim como, por exemplo, embora o Senhor ainda não tivesse sofrido a Paixão no momento da Ceia Mística, Ele derramou Seu Sangue e deu a Comunhão aos Apóstolos – o que foi uma verdadeira Comunhão, um antegozo, um pré-sofrimento. Na Comunhão, participamos tanto do Senhor sofredor quanto do Senhor Ressuscitado, visto que estes coincidem. Mas Ele ofereceu a Ceia Mística antes de Seu sofrimento: “Tomai e comei: isto é o Meu Corpo, que é partido por vós” – mas ainda não havia sido partido. Gregório de Nissa diz que o Senhor queria demonstrar que estava indo voluntariamente, e não por causa da malícia dos judeus ou do julgamento dos romanos. E quando Pedro tentou desviá-Lo, em Mateus 16 – o mesmo Pedro fervoroso que dissera: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo – o Senhor respondeu: Arreda-te de Mim, Satanás (Mateus 16:23). O Papa deveria saber que o Senhor disse isso a Pedro mesmo depois de sua confissão. Além disso, Pedro posteriormente negou o Senhor e teve que ser restaurado à sua dignidade apostólica por meio de tríplice arrependimento. O Papa não falou de si mesmo dessa maneira.
Houve um grego, Fócio Kontoglou, um bom escritor da Ásia Menor que se refugiou na Grécia e um excelente iconógrafo, que escreveu um artigo no qual dizia: “Por que o Papa escolheu o Apóstolo Pedro como patrono de sua infalibilidade? Se ele tivesse falado de algum Apóstolo que talvez não tivesse pecado, isso ainda poderia fazer algum sentido. Mas Pedro cometeu 300 erros” (nkafes refere-se a quando uma criança faz travessuras). É claro que o Senhor escolheu Pedro como Seu principal discípulo, mas sempre como igual aos outros, visto que Pedro era um ser humano, compreendia as fraquezas humanas e era indulgente com os outros. Se Ele tivesse escolhido um anjo, diz São João Crisóstomo, o anjo não teria compreendido alguém que pecou uma, duas, três, sete, setenta e sete vezes. O anjo já teria tido o suficiente!
Está registrado que o seguinte evento maravilhoso ocorreu na Santa Montanha do Athos, no século XVI. Havia um homem pecador, um pobre coitado, que tinha uma fraqueza no corpo; ele a renunciou muitas vezes, implorando a Deus que não pecasse. Ele foi à igreja, chorou, fez promessas ao Salvador e depois foi embora – e pecou novamente, e mais uma vez retornou. Isso continuou por um longo tempo. Certa vez, muitos anos depois, ele veio e chorou diante do Senhor, arrependido: "Ó Senhor, ajuda-me; eu vou parar!" De repente, o diabo não aguentou mais e disse a Cristo do pórtico da igreja: "É assim que Tu és; Tu não entendes nada! Este aqui jura e chora para Ti enquanto está aqui, mas assim que ele for embora, ele é meu e fará o que eu quiser. Por que Tu o toleras?" Então o Senhor respondeu do ícone: “Por que você vem até ele se ele é Meu? Eu não te incomodo quando ele é teu. Aceito um homem na condição em que o encontro.” E naquele exato momento este homem morreu.
Foi assim que o Senhor o levou. Tal é a paciência do Senhor!
A realidade da salvação é a deificação e a comunhão com Deus. É real, e não intelectual, emocional ou sentimental. Palamas tem a coragem de dizer que quando o homem se une a Deus por meio da deificação, ele não desaparece, mas é glorificado; o Senhor o preenche com graça e renova Seu vínculo com ele. Barlaão ao afirmar que a luta ascética do homem deveria ser pela aquisição do desapego (apatheia, ausência de paixão), que é preciso matar todos os desejos para se tornar calmo e desapaixonado, Palamas respondeu: "Mas isso é um cadáver!"
Os estóicos também diziam que é preciso atingir a apatheia, matar todos os sentimentos e movimentos. O Buda disse a mesma coisa: que o principal mal é a sede pela vida, e que ela precisa ser renunciada. Não apenas a sede por prazer físico ou espiritual – não, a vida é má, ela precisa ser renunciada! Isso é terrível! Abba Justin disse que o budismo é a maturidade do desespero.
Palamas disse a Barlaão (sem, é claro, se referir ao Buda) que nossa luta ascética não é para alcançar a apatia, não para matar tudo, mas sim para oferecer um "sacrifício vivo" a Deus em todas as coisas. A purificação e a subjugação das capacidades passionais da alma e do corpo são essenciais. É preciso direcioná-las a Deus: Deus nos dá essas capacidades para que vivamos por meio delas. É preciso oferecer um sacrifício vivo pulsante de vida eterna.
Aqui está um comentário. Quando li o seguinte, entendi por que a Ortodoxia é sempre alegre. Muitos dizem que é preciso mortificar-se, tornar-se "morto" — mas isso é quase impossível. É impossível quando a graça está presente, pois a graça dá vida. Inácio de Antioquia está a caminho do seu martírio — ele já é um homem velho, com quase oitenta anos — e diz: "Ouço o som de água viva; ouço um riacho borbulhante que diz: 'Venham ao Pai'."[8] E este é um homem velho de oitenta anos! Isto é a Ortodoxia.
A luta ascética não consiste em mortificação, mas em purificação da mortalidade. Pecado é mortalidade e perecibilidade. Como o apóstolo Paulo disse no início de seus trabalhos apostólicos, precisamos nos voltar das obras mortas para o Deus vivo (cf. Hebreus 9:14; 6:1).
Saulo não poderia ter se tornado cristão, não poderia ter se tornado o apóstolo Paulo, até que Saulo morresse. Quando Saulo morreu e ressuscitou em Cristo como Paulo, tudo o que havia de bom em Saulo recebeu um enorme potencial; floresceu e atingiu seu pleno significado.
Palamas colocou desta forma: o homem deificado torna-se infinito, eterno, imortal e até mesmo – e aqui ele está repetindo Máximo – sem começo! Eis um paradoxo para você! A existência do homem tem um começo, mas não tem um fim, como um raio geométrico que começa em um ponto e continua infinitamente. Mas Palamas diz que também se pode tornar sem começo – como isso é possível? Ele simplesmente entra no curso eterno da vida Divina: aquele círculo, inclusão ou pericorese, que é a habitação mútua da vida Divina. Portanto, a pessoa se envolve nesta vida, é nutrida por esta vida e vive nesta vida, que não tem começo. Nesse sentido, a deificação é a graça que se recebe, como disse o apóstolo Paulo: Eu vivo; já não sou eu, mas Cristo vive em mim (Gálatas 2:20).
Palamas é um teólogo que reinterpretou toda a Sagrada Escritura, como disse nosso Metropolita Amfilohije em seu excelente estudo da triadologia de Palamas[9]; é uma interpretação renovada da Sagrada Escritura. Ele não mudou nem rejeitou nada; ele realmente recebeu um presente de Deus.
Tudo isso aconteceu antes do grande sofrimento dos ortodoxos, que ocorreu cinco séculos depois, e, portanto, sobrevivemos em parte graças ao hesicasmo. Acredito, como São João de Kronstadt e outros disseram, que a Igreja Russa sobreviveu ao seu terrível sofrimento graças ao sangue dos mártires. Deus não nos abandonará; Ele dará novos santos também no futuro – basta crer em Deus e na Igreja. Ontem recordámos Tyutchev: “A Rússia não pode ser compreendida pela mente… só se pode acreditar na Rússia.”[10] Portanto, é preciso acreditar na Santa Rússia e na Ortodoxia!
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Notas do tradutor
[1] Sua Graça provavelmente se refere a "Os Ensinamentos Ascéticos e Teológicos de Gregório Palamas", do Hieromonge (posteriormente Arcebispo) Basílio (Krivoshein) (1900-1985), publicado em russo em Praga em 1936; uma versão em inglês apareceu no periódico Eastern Churches Quarterly, vol. III, 1938. George Ostrogorsky (1902-1976) publicou um artigo em russo sobre os hesicastas de Athonse seus oponentes em russo em 1931; ele é bem conhecido pelos leitores de língua inglesa como o autor de "História do Estado Bizantino" (publicado pela primeira vez em alemão em 1952 e, em seguida, em inglês em 1969).
[2] Aleksei Fedorovich Losev (1893-1988) foi um proeminente filósofo, filólogo e culturólogo russo. Vários anos após sua morte, foi revelado que ele e sua esposa haviam sido tonsurados secretamente enquanto monges em 1929. A série de livros mencionada pelo autor apareceu em oito volumes entre 1963 e 1988. Uma de suas primeiras obras cruciais, The Dialectics of Myth, publicada originalmente em 1930, existe em tradução para o inglês (Nova York, NY: Routledge, 2003).
[3] Cf. Epístola aos Filadélfios, 8.
[4] De acordo com a teologia escolástica, a graça criada é um habitus (latim) no sentido de ser uma qualidade recebida ou aperfeiçoada. Não deve ser confundida com o sentido contemporâneo de "hábito" como uma tendência ou prática estabelecida.
[5] Cânone Pascal, Ode 9.
[6] Um álbum de sua obra iconográfica e artística, juntamente com vários de seus ensaios, existe em inglês: In the Mirror (Sebastian Press, 2007).
[7] Yannis Makriyannis (1797-1864) foi um herói da luta pela independência grega, alcançando o posto de general. Hoje, ele é mais conhecido por suas Memórias, um monumento da literatura grega moderna escrito em grego demótico puro.
[8] Cf. Carta aos Romanos, 7:2.
[9] Tajna Svete Trojice po ucenju Grigorija Palame, 1973.
[10] De um poema de quatro versos (hoje proverbial) escrito pelo grande poeta romântico Fiódor Ivanovich Tiutchev (1803-1873) em 28 de novembro de 1866.
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