QUÃO MAGNÍFICA É NOSSA SENHORA

NIKOLAOS, Metropolita de Mesogaia e Lavreotiki
tradução de monja Rebeca (Pereira)


Que pessoa magnífica é Nossa Senhora! Ela nos mostra o caminho e nos fornece a via para a deificação, isto é, como cada um de nós pode alcançar um estado de semelhança com Deus e comunhão com Ele. Nossa Senhora também é um modelo para a nossa vida e uma fonte de força, com a proteção de Suas intercessões, nesta nossa jornada. Mas como isso é possível?

Há seis características em relação à pessoa da Mãe de Deus.

A primeira é a Sua humildade. Isso fica evidente na Anunciação, em Sua resposta ao Arcanjo Gabriel: "Eis aqui a Tua serva. Faça-se em Mim segundo a tua palavra" (Lucas 1, 38), isto é, sua imediata submissão e obediência à vontade de Deus, que deve ter sido inconcebível e incompreensível para Ela. E Ela o fez sem nenhum traço de vontade própria.

O segundo atributo é a Sua pureza virginal, não apenas no corpo, mas em toda a Sua vida em geral. Nós a chamamos de Virgem, câmara nupcial, imaculada, incorrupta, pura, e assim por diante. Em sua homilia sobre a Apresentação da Mãe de Deus, São Gregório Palamas descreve essa pureza da pessoa da Mãe de Deus e, entre outras coisas, afirma que Ela não foi manchada nem mesmo pelo conhecimento terreno. É por isso que Ela não frequentou a escola, mas foi educada em assuntos espirituais dentro do templo. Ela estudou as ciências e a sabedoria celestiais na universidade do santuário. Não Se contaminou com conversas, mudanças de coração ou com a grosseria da comunicação secular, mas viveu em completa serenidade, em completa obscuridade.

E isso nos leva à terceira característica da Mãe de Deus: Sua obscuridade e silêncio. É notável que a pessoa da Mãe de Deus quase não apareça nos Evangelhos. De fato, no Evangelho segundo São Marcos, não há sequer um indício de Sua existência e vida. Em São Mateus e São Lucas, que contêm mais informações, há apenas referências ocasionais, principalmente relacionadas às circunstâncias do nascimento do Senhor. São João menciona apenas a conversa entre Ela e o Senhor na época do milagre em Caná, bem como o diálogo entre o Senhor, Sua mãe e João na crucificação: "Mulher, este é o Teu filho. E depois ao discípulo: Esta é a tua mãe" (Jo 19, 26, 27). Finalmente, há uma referência à "Mãe de Jesus", novamente por Lucas, nos Atos dos Apóstolos (1, 14). São Paulo não A menciona de forma alguma.

Embora tenha sido um catalisador tão poderoso da providência divina na vida da humanidade, a pessoa da Mãe de Deus é tão discreta. Ela não falava muito; não criava tensões; não tinha desejo de apresentar provas da divindade do Senhor após Sua crucificação e ressurreição. Seus biógrafos nos contam em Sua Vida que Ela viveu mais alguns anos após esses eventos. Sua vida tranquila foi seguida pelo evento devastador de Sua dormição, Sua partida maravilhosa deste mundo, convocada pela ordem de Deus para estar presente com Ele.

Há outras três características às quais me referirei, apenas tomando emprestados os nomes mais característicos que a Igreja lhe atribuiu. A primeira é a Mãe de Deus, a segunda é a solteira [lit. ‘que não conheceu o matrimônio’] e a terceira é a eterna virgem.

É uma propriedade da Mãe de Deus ter dado à luz Deus, ter dado à luz Cristo. Todos nós, fiéis, somos chamados em nossas vidas a fazer isso: gerar Cristo misticamente, ser ‘nossa carta, conhecida e lida por todos’ (2 Cor. 3, 2).

A segunda característica distintiva é que Ela era solteira, o que significa que não tinha experiência de casamento, que não havia tido relações conjugais para dar vida a Cristo. Da mesma forma, segundo os Padres, todos os cristãos que desejam viver a vida de purificação e atingir o estado de deificação devem, na medida do humanamente possível, tornar-se ‘intocados’ pela natureza. Em outras palavras, eles devem, por livre e espontânea vontade, evitar ser afetados por impulsos naturais, estados físicos e até mesmo sentimentos. Ser intocado pela natureza, ser liberto da grosseria da natureza, leva à experiência da graça.

A característica final é que Ela era e permaneceu virgem; estava permanentemente em estado de graça. Nossa Senhora não era virgem apenas até dar à luz, mas permaneceu virgem mesmo depois do nascimento; é isso que significa eternamente virgem. Essa retenção permanente do estado de graça é o elemento final que pode servir de modelo para nós em nosso caminho rumo à deificação.

Se vivermos assim, seguindo o exemplo da Mãe de Deus em relação à Sua humildade, Sua pureza virginal, Sua discrição e Sua quietude e silêncio místicos; se pudermos compartilhar o mistério e o estado de dar à luz Deus em nós, isto é, de sermos, na medida do possível, intocados pela natureza, isto é, não afetados por nossa subjugação a ela; e se pudermos participar permanentemente da graça, então seremos capazes, mesmo neste mundo, de experimentar nossa união mística com Deus. Alcançaremos o estado de comunhão com Deus, isto é, a deificação.

E quando chegar a hora da nossa própria morte, não será um fim, mas um adormecer, um afastamento do que é grosseiro para o que é refinado, do efêmero para o eterno, do humano para o divino, do perecível para o imperecível.

Neste espírito, que Deus nos conceda o real benefício dos nossos Cânones de Intercessão, e que Nossa Senhora e Mãe nos redima das necessidades, tristezas, dores e dificuldades do dia a dia. Acima de tudo, porém, que Ela seja o protótipo místico da outra vida na graça e no espírito. Amém.


Comentários