ENTREVISTA COM O SACERDOTE PAULO (LEMOS) - PARTE 1
LEMOS Paulo, Abouna
Sacerdote ortodoxo da Paróquia Ortodoxa Antioquina de São Jorge em BH
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Arcebispo Damaskinos (Mansour) e Padre Paulo Lemos Ordenação Sacerdotal. Catedral Antioquina em SP, 16 de abril de 2022 - Sábado de Lázaro |
1) Conte-nos sua jornada na Ortodoxia. Como, onde, quando se deu este primeiro contato com a Igreja Ortodoxa e como ele se desenvolveu?
Nasci em um lar católico-romano. Como muitos brasileiros, éramos uma família que frequentávamos a Igreja de forma esporádica, mas me lembro muito bem que aos cinco anos de idade fomos a igreja eu e meu pai e fiquei surpreendido em estar em um ambiente totalmente alheio ao cotidiano e talvez a figura que mais me chamou a atenção tenha sido o padre celebrante daquele dia.
Logo nos mudamos para um bairro que surgia em minha cidade natal Goiânia-Goiás, para ser mais preciso no dia 01 de julho de 1989. Neste bairro sem nenhuma estrutura, pude ver o nascimento de uma comunidade que alugava um pequeno imóvel que antes era um boteco para as celebrações dominicais. Deste então começamos a frequentar mais assiduamente as atividades daquele pobre povo e estes momentos marcariam minha vida para todo o sempre. A vida pulsante deste povo fizeram parte da minha adolescência, juventude e claro boa parte da minha vida adulta. Porém em meados de 2007 algo que eu ainda não saberia o que exatamente era, começou a me inquietar, eu buscava algo mais profundo e essa busca estava justamente na tentativa de servir mais e mais. Nesta época eu estava numa grande paróquia em Goiânia, e tocava flauta transversal em um grande grupo desta igreja, fazíamos vigílias, buscava viver tudo o que um leigo poderia viver e mais um pouco.
Em meados de 2008 em um retiro e tendo uma conversa muito profunda sobre minhas inquietações e como eu poderia servir mais, cheguei a conclusão que minha vocação era ser Padre, porém foi um mixto de alegria e dor, pois eu já não poderia seguir este caminho por ter uma família. Claro que esta descoberta traria grandes respostas, mas uma inquietação maior agora tomava conta da minha vida, e a grande pergunta que me fazia era: “Como você foi tão insensível que não entendeu este chamado antes?”
Em setembro de 2008, não sei precisar a data, enquanto fazia a leitura do catecismo romano, me deparei com o paragrafo 1580: “Nas Igrejas orientais vigora, desde há séculos, uma disciplina diferente: enquanto os bispos são escolhidos unicamente entre os celibatários, homens casados podem ser ordenados diáconos e presbíteros.”
Eu não acreditava no que lia, reli muitas vezes, pois até então jamais tinha ouvido falar que homens casados poderiam ser sacerdotes. Agora sim podemos dizer que começa minha caminhada na Santa Ortodoxia. O que é Igreja Oriental? Onde eu posso encontrar uma?
Comecei a buscar como podia, pois em 2008 não tínhamos tanta informação em português, não existia as facilidades que temos hoje, mas para uma resposta que jamais imaginava que poderia existir, já não havia obstáculo que não pudesse ser vencido.
Em dezembro de 2008 descobri uma comunidade ortodoxa em Goiânia - a paróquia de São Nicolau. Liguei na mesma semana e me lembro bem que o secretário, disse assim: “A igreja esta fechada há seis anos, mas domingo um padre começa a cuidar da Paróquia”.
No dia 7 de Dezembro de 2008 foi a primeira vez que pude participar de uma Divina Liturgia. No final da qual me apresentei ao Padre Rafael Magul que teria um papel fundamental em minha conversão a Santa Ortodoxia.
Hoje vejo que muitos estudam e buscam satisfazer suas necessidades intelectuais para decidirem estar na Ortodoxia.
Eu não tive escolha, a Ortodoxia era a única chance de fazer aquilo que eu tinha certeza que aplacaria as minhas inquietações, glória a Deus que foi assim. No dia 24 de outubro de 2010, fui ordenado Hipodiácono em Goiânia pelas mãos do nosso Arcebispo Damaskinos (Mansour). Foram anos e anos de muito trabalho, quedas e soerguimentos. O caminho do sacerdócio é um caminho árduo, e deve ser assim mesmo: "Assim acontece para que a vossa fé, muito mais valiosa do que o ouro que perece ao ser provado pelo fogo, seja provada e resulte em louvor, glória e honra quando Jesus Cristo for revelado". (1 Pe.1:7)
Na Festa da Dormição (15 de Agosto) de 2021 fui ordenado Diácono em Goiânia, e Padre no Sábado de Lázaro (16 de Abril de 2022) em nossa Catedral em São Paulo.
2) O senhor passou certo tempo se preparando para ser ordenado sacerdote no Líbano, não? Como foi este período? Fale-nos também do contato com os Bispos, sacerdotes, monges, seminaristas, salmistas e o povo de Deus, enfim.
Chegamos no Líbano no dia 24 de outubro de 2019, eu juntamente com o Padre Paisios, na época Hipodiácono como eu, e o Padre Elian ainda leigo. Ao chegarmos no Líbano, em especifico no Seminário de Balamand, no norte deste país maravilhoso, nos deparamos com duas realidades que pelo menos para mim seriam transformadoras.
A primeira e mais aparente é a cultura de um país oriental, a segunda e mais importante é a vivência espiritual e litúrgica. Já no dia 25 na noite seguinte participamos de nossa primeira Vigília de nossas vidas, lembrando para os leitores que Vigília para nós ortodoxos tem dois significados, um é passar a noite em oração e o segundo do qual nós participamos é a junção de serviços como: Serviço de horas, Vésperas, Matinas e Divina Liturgia, celebrados de forma conjunta sem interrupções (em árabe se chama Sahranie e grego Agripinia). Quando digo transformador pois em meio aos belos cânticos e quase 6 horas de celebração, um coro com mais de 20 seminaristas, vários sacerdotes e diáconos, a pergunta que não se calava era: “Como em onze anos de Ortodoxia eu nunca tinha experimentado tudo isso?” Um dia teríamos toda essa riqueza no Brasil? Seriamos capazes de chegar a este nível de beleza? E claro que sai ao final da Vigília com a resposta, sim é possível, pois o mesmo Espírito que os animou é o Mesmo que nos anima.
O período prescrito era uma temporada de seis meses ou seja, a idéia era passarmos a Quaresma e semana Santa de 2020 no Líbano e assim retornarmos ao Brasil, mas em meio ao caos da Pandemia tudo mudou, pois Deus tem Seus desígnios e por providência Divina o seminário teve que fechar suas portas e todos os seminaristas estrangeiros conseguiram voltar para suas casas. Somente nós brasileiros não conseguimos... Eu tive que ir para o Monastério de Santo Elias em Chuaia e os outros dois foram para o Monastério da Dormição da Mãe de Deus em Hamatoura. Nestes três meses vivendo em um Monastério conseguimos em parte ver a grande profundidade da Ortodoxia, podíamos agora conviver, trabalhar e rezar com os monges.
Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de Mim, achá-la-á. (Mateus 16:25) Penso que os monges e monjas conseguem entender esta frase de Cristo em toda a sua plenitude, pois a oração os transformam de tal maneira que os problemas que lhes são apresentados não são resolvidos de forma mundana. Lembro-me que num dia de muita angústia, pois humanamente estava esgotado por não saber se voltaríamos e encontraríamos nossos entes queridos com vida pela pandemia, estava trancado a um dia inteiro e uma noite sem comer, e veio a porta do quarto um monge ver se tinha acontecido algo e eu lhe expus minhas preocupações e ele veio com a resposta rápida a minha dor: “Vamos ali, segura este kombuskini e vamos trabalhar na construção do novo monastério feminino”. Derrubando paredes, plantando e carregando pedras pude ver minhas preocupações se exaurindo e dando lugar a paz, no final do dia ele me disse: “Espero-te nas Vésperas e no jantar.” Conviver com homens que rezam de verdade transforma tudo em sua volta, um monastério é transformador justamente por isto, não é somente a beleza estética, mas a beleza interior. Neste monastério participei de varias vigílias e mesmo não entendendo as orações que eram cantadas em árabe, e que terminavam lá pela meia noite, não saíamos a mesma pessoa, o simples fato de estar ali já é transformador.
Nestes nove meses no Líbano pude conhecer outros monastérios, e até passar alguns dias em Hamatoura - na minha opinião lá estão os maiores Protopsalticos de Antioquia, se destacam o Abade Yacob na época monge Yuhana, e Hieromonge Serafim, naquele tempo apenas Monge. Neste monastério pude venerar as Santas relíquias dos Santos Mártires de Hamatoura. Além da celebrações belíssimas e a dificuldade para se chegar neste monastério, pois ele está em uma encosta e leva ao meno,s para uma pessoa saudável, uns 45 minutos de subida, o que mais nos marcou é a quantidade de jovens que acorrem a este santo lugar, para viverem sua fé deixada pelos Apóstolos, pois que no Líbano nosso Senhor e Seus Apóstolos colocaram suas pegadas, e claro um de Seus maiores Profetas - o grandioso Elias. Visitei o sul do Líbano, sobretudo a cidade de Tiro, e não pude deixar de me emocionar quando chegamos ao Porto da Cidade. São Paulo sabia que não os veria mais e dali foi para Jerusalém para ser preso (At.21:3-6). Senti-me indigno do nome que eu levava pois este santo homem viveu uma verdadeira vida em Cristo.
Outro momento marcante sem sombra de dúvidas foi ter conversado um pouco com nosso Patriarca João X, e ter servido uma Divina Liturgia com ele no Monastério do Balamand. Conversar com um Sucessor de São Pedro e São Paulo fundadores do Santo Trono de Antioquia nos deu a grandiosidade e profundidade das palavras de Cristo. “E também Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;” Mateus 16:18.
3) Fale-nos da possível sinergia da música com a vida espiritual, por favor. E de como senhor concebe uma expansão do conhecimento do canto bizantino em terras brasileiras. Existem projetos para passar a interessados a diante, nem que seja um pouco, desta riqueza?
Os Santos Padres entenderam de forma sublime por terem purificado suas almas e as iluminado com a Graça incriada a profundidade da antropologia humana, e descreveram em seus escritos e em suas vidas as principais portas de entrada para as paixões (logismis). Estas portas são justamente os nossos cinco sentidos, que se não forem transfigurados nos levam a perdição. Não que Deus os tenham feito maus, mas por estarem sob o jugo do pecado não cumprem aquilo que deveriam e nos auxiliem em nosso caminho de salvação. Sem delongas neste tema complexo que penso não ter a capacidade de me aprofundar por hora, fica evidente que a Divina Liturgia e os serviços da Igreja têm como meta a deificação do homem. Todos estes cinco sentidos são de certa maneira santificados.
Colocando a ênfase neste sentido tão especial, a nossa audição, os Serviços da Igreja tem o papel de curá-lo. “A Igreja é um hospital, e não um Tribunal, para as almas!” São João Crisóstomo. Este Santo grandioso entendeu o verdadeiro papel da Igreja que muitas vezes o esquecemos, e se não entendermos isto, tudo perde o sentido, a Igreja não é para o entretenimento, a Igreja é para os doentes que buscam a theosis. Dentre as artes humanas a música recebe uma atenção especial, pois ela tem a capacidade de nos transportar mesmo que de maneira linear a momentos e lembranças vividas em nossas vidas. Quando eu me referi de maneira linear, eu pensava em tempo, mas lembrando que o tempo para a Igreja é um tempo distinto, pois para os gregos são usada duas palavras: Chronos e Kairos. Quando ouvimos algumas músicas não religiosas elas nos remontam ao Chronos ou seja um tempo passado e reto. A Igreja não utiliza o Chronos mais o Kairos, ou seja um tempo circular, fazendo com que o que celebramos se torne presente e não meramente uma lembrança que não pode ser vivida, não uma lembrança nostálgica.
Os Padres da Igrejas sempre colocaram a ênfase de que na Igreja, em nossas Liturgias, jamais poderiam se assimilar ao mundo, por isso desde os tempos antigos não usamos instrumentos, pois Deus nos fez plenamente capazes de louvá-Lo apenas com nossos corpos e vozes. Investir todos os esforços para que tenhamos belos ícones, bons incensos, um bom coro, a melhor farinha para a prósfora, é investir no Reino, é investir na cura.
Por misericórdia de Deus, temos em nossa paróquia jovens que já estão muito avançados no estudo do canto bizantino. Podemos dizer que este é um processo lento, pois trabalhamos com escalas totalmente distintas dos nossos ouvidos ocidentais. O canto bizantino pode ser dividido em três etapas de aprendizagem:
1) Aprender os Neumas, ou seja entender como é a dinâmica das escalas básicas, suas divisões de tempo, seria como que uma alfabetização;
2) Mergulhar na teoria musical bizantina, conhecer as várias escalas, entender as famílias dos modos, a junção das escalas, etc;
3) Colocar em prática os itens 1 e 2, e ouvir muita música bizantina.
Aqui em Belo Horizonte já estamos entrando na etapa 2 e mesmo assim já colhemos bons frutos. Confesso que tentei em 2020 gravar alguns vídeos sobre música bizantina, mas naquela época talvez eu não tivesse a capacidade que eu pensava ter, quem sabe no futuro eu possa voltar com este trabalho. Mas agora o meu foco total é em trabalhar aqui na paróquia, e fazer com que a Liturgia se torne cada dia mais bela.
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