ENTREVISTA COM O SACERDOTE NEKTARIOS (BICHARA) - PARTE 2

BICHARA Nektarios, Abouna
Sacerdote ortodoxo da Catedral Ortodoxa Antioquia de São Nicolau no RJ

Abouna Nektarios com sua esposa, a Presbitéria Maíra, e seus filhos Miguel e João


4) Fale-nos sobre os Serviços Litúrgicos no Vicariato do RJ. Em que idioma são realizados, como são realizadas as traduções e adaptações para o canto? No seu ponto de vista, a musica bizantina pode ser encarnada na cultura brasileira? Como os brasileiros participam e reagem a este atributo tão oriental como a hinografia bizantina?

Desde a chegada de Dom Theodore, em 2018, uma das principais mudanças que vem ocorrendo no Vicariato diz respeito à intensificação dos serviços litúrgicos. Como comentei, antes, vigia - acho que não só no Rio de Janeiro, mas no Brasil, em geral, de forma majoritária - uma ideia de que a Ortodoxia por aqui seria uma “Ortodoxia mais ou menos” ou uma Ortodoxia do possível. E esse possível parecia ser bem restrito. Então, de forma geral, a experiência litúrgica se limitava a liturgias dominicais, na melhor das hipóteses precedidas de parte das matinas e, em alguns casos, liturgias no meio da semana. Na Semana Santa, eram acrescidos mais alguns ofícios. Em relação a esse ponto, a Catedral de São Nicolau, apesar das inúmeras dificuldades que relatei há pouco, até se sobressaía como um dos locais em que os serviços litúrgicos, para os parâmetros do Brasil, não eram tão restritos, pois na Quaresma havia celebração do Akathistos, às sextas-feiras, e de ofícios todos os dias da Semana Santa, embora não todos os prescritos, nem em sua integralidade.
 
Mas foi pela firmeza na crença de que esse pensamento não era apropriado e que o Brasil podia e merecia ter uma ortodoxia plena, também na questão litúrgica, que começamos a empreender esforços de preparação e celebração de outros ofícios. Foi assim que começamos a revisar os ofícios da Semana Santa, para corrigirmos o que havia sido excluído deles, bem como para preparar os que nunca haviam sido traduzidos, como o Ofício do Lava-Pés e as Vésperas da Grande Sexta-Feira com a descida do corpo de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo da Cruz. E na Quaresma passou-se a celebrar as Grandes Completas e as Liturgias dos Dons Pré-Santificados.

Também para a celebração do Natal, preparamos os Ofícios de Horas Reais e Vésperas, além de revisar as matinas. E, a partir disso, fomos revisitando, ou preparando do início, os ofícios próprios paras as principais festas e os santos de maior devoção do calendário litúrgico. Em um passo seguinte, passamos a celebrar algumas dessas datas na forma de vigílias, com os ofícios e a liturgia servidos em sequência, uma experiência que tem sido espiritualmente muito enriquecedora.

Além disso, também traduzimos os serviços de Akathistos de Nossa Senhora Pantanassa (que passou a ser oficiado semanalmente na Catedral de São Nicolau), a Paraklesis de Nossa Senhora e a Paraklesis de São Nektarios.

Todos esses ofícios são celebrados majoritariamente em português, com pontuais cânticos em árabe ou em grego, geralmente nas ocasiões em que eles são repetidos. Mas, diferentemente do que ocorria antes, todos estão devidamente traduzidos, de modo que, mesmo em determinadas festividades em que há um pouco mais de cânticos em outro idioma, todos tem a possibilidade de compreender o que está sendo cantado.

Essas traduções são realizadas, majoritariamente, a partir do inglês e do árabe, com eventuais conferências do grego. No início, esse processo foi mais lento, em virtude da preocupação com uma tradução mais perfeita e definitiva. Porém isso revelou-se um grande desafio, sobretudo para os cânticos. Então percebemos que era mais importante fazermos as orações do que ficarmos só preparando elas. Foi quando, optamos por, num primeiro momento, preparar os textos que não existiam em português e usá-los, para, depois de suprida essa necessidade mais urgente, podermos nos debruçar mais detidamente sobre cada um e aperfeiçoar as traduções.

Como não temos uma tradução genuinamente ortodoxa da bíblia para o português ou mesmo para outro idioma mais acessível, como o inglês, o francês ou o espanhol, e como os cânticos são permeados de frases dos salmos, e outros trechos das escrituras, isso gera alguma dificuldade de definir a tradução a seguir. Além disso, a hinografia ortodoxa é extremamente rica e contém em si uma teologia profunda, que, por vezes é de difícil tradução, principalmente de modo a caber na métrica das melodias. 

O ideal seria que este tipo de trabalho fosse realizado por alguém que tivesse pleno domínio da música bizantina, além de ser versado no português e no grego e/ou árabe, além, é claro, de ter um conhecimento aprofundado das escrituras e uma espiritualidade elevada. Ou seja, é um trabalho complexo e que exige pessoas de qualidades raras para ser feito. Contudo, enquanto não temos essas pessoas no Brasil, não podemos, simplesmente, ficar à espera, então procuramos suprir isso trabalhando a várias mãos. Uns traduzem, outros aperfeiçoam o texto, outros procuram enquadrá-lo na música de modo a ser o mais fiel possível ao sentido literal, mas principalmente teológico, sem descaracterizar a melodia própria.

Como a maior parte dos cânticos foi composta em idioma que tem uma estrutura léxica e gramatical bem distinta do português, o encaixe na música é um grande desafio e as vezes é preciso “quebrar a cabeça” para encontra uma palavra certa. Por vezes há uma perda estética significativa da musicalidade e aí é hora de pensar se, pontualmente, vale a pena manter o cântico em outro idioma, ou, ao menos, com algumas palavras em outro idioma, com a correspondente tradução e transliteração para que os fiéis possam compreender e participar dele. Eu, particularmente, acho que essa é uma solução válida, em certos casos. Mas, de forma geral, temos conseguido encontrar caminhos para manter as melodias próprias dos cânticos e adequar a tradução.

Mesmo com os cânticos traduzidos, os fiéis, em geral, ainda têm dificuldades ou receio de entoá-los. Acho que múltiplos fatores concorrem para isso. A própria compreensão ocidental do papel do canto religioso diverge muito do entendimento ortodoxo. O canto bizantino não apela ao sentimentalismo, não busca exteriorizar as emoções dos fiéis. Ao contrário, ele procura introjetar no íntimo dos fiéis as verdades teológicas que explicitam ou os eventos sagrados que descrevem. Eles emocionam, mas não superficialmente. Se a pessoa não for tocada espiritualmente por eles, talvez ela até os ache enfadonhos.

Em acréscimo, há questões inerentes à realidade incipiente da Igreja no Brasil. Temos uma deficiência histórica no país quanto ao desenvolvimento de coros ortodoxos. Se o ideal para o canto bizantino, com sua característica antifônica, seria ter dois coros simultâneos, a nossa realidade, preponderante, é de sequer ter um coro. No mais das vezes, o que vemos nas igrejas ortodoxas do Brasil é um cantor secundado por alguns auxiliares bem-intencionados, mas sem conhecimento musical. E essa imagem de um cantor executando o canto, acaba por inibir os fiéis, que vem nele não alguém que tem a função de liderar o canto comunitário, mas alguém que é uma espécie de “dono do canto”. Não necessariamente ele se coloca nessa situação, senão a própria comunidade é que se inibe e se cala. 

De outro lado, temos dificuldades intrínsecas ao canto bizantino, seja pela utilização de uma notação musical diferente da ocidental, seja pela utilização de uma estruturação melódica a qual não estamos acostumados, tanto pela duração dos mesmos em sua totalidade quanto pelo prolongamento de algumas frases melódicas, além da própria letra, carregada de profundo significado teológico, o que, por vezes, implica utilizar palavras de mais difícil pronúncia. 

Associado a isso temos a riqueza desse tesouro musical, seja em termos de variação tonal, com as mesmas músicas podendo ser entoadas em oito tons diferentes, seja pela multiplicidade de cânticos. Tais especificidades dificultam que alguém sem um mínimo conhecimento da música bizantina possa prestar um auxílio mais efetivo em relação ao canto, por exemplo apenas decorando alguns cânticos. Seria muito pouco. Não é incomum termos músicas com duração de cerca de 10 minutos. O Doxastikon das vésperas da Dormição da Mãe de Deus, por exemplo tem praticamente essa duração e com cada frase cantada num tom diferente. É lindo, mas é complexo. Com esforço é possível decorá-lo, mas é difícil decorar esse e todos os demais cânticos com semelhantes características. Então, a preservação da riqueza do canto bizantino, exige um conhecimento musical específico e, para isso, é preciso encontrarmos fiéis vocacionados a servir à Igreja que se dediquem a esse aprendizado, inclusive para passá-lo adiante. 

Não tenho dúvidas de que brasileiros podem aprendê-lo, sobretudo aqueles que já têm conhecimentos de teoria musical. Mas é preciso que entendam que, como tudo na ortodoxia, não estamos falando só de canto, de expressão artística. Estamos falando de louvor a Deus, de oração cantada, do cântico dos anjos. Então o seu aprendizado não é apenas racional e sensorial, mas espiritual. Nesse sentido não estamos falando de aprendizado de uma nova técnica de canto, mas de uma forma de rezar cantando.

Por isso temos que lembrar, também, que a beleza estética do canto é importante, de um lado para nos ajudar a alcançar uma elevação espiritual e, de outro, para demonstrar o esmero de quem canta em agradar a Deus, mas ela não está acima da própria oração. Então ninguém deve se inibir porque não tem boa voz ou boa técnica. Com um pouco de boa vontade, todos podem aprender os cânticos básicos da Liturgia e dos ofícios principais. Assim é que, se é importante que haja pessoas com conhecimento específico do canto bizantino para preservar e transmitir essa expressão da espiritualidade ortodoxa, não é menos relevante que a comunidade em geral cante nas celebrações, mesmo sem esse conhecimento.

Por fim, é importante perceber que a ausência do canto comunitário, em regra, revela pouca intimidade dos fiéis com os cânticos litúrgicos. Hoje em dia, vendo crianças de volta à nossa Igreja, testemunhamos elas cantando nas próprias celebrações e em casa, até mesmo em outras línguas, os cantos bizantinos, que para elas tem soado familiar, porque têm crescido num ambiente de intensa participação liturgia e têm, no seu cotidiano, mesmo fora da Igreja sido acostumadas a ouvi-los. Isso faz muita diferença.


5) Existem temas que o Ocidente parece "bater de frente" com o ethos da vivência ortodoxa. Um dentre eles é o tema da família. O senhor poderia expor sucintamente seu papel crucial na Igreja Ortodoxa?

No mundo como um todo, mas, principalmente, no ocidente, a família está sob ataque. De um lado tem-se uma parcela cada vez maior da sociedade que manifesta essa investida de forma explícita, pelo desprezo à família, e os princípios que devem regê-la, os quais conflitam com a ideia egoísta de que as pessoas devem satisfazer todos os seus desejos mundanos, o que chamam de felicidade. De outro lado, a agressão à família ocorre de maneira velada, sob a aparência de exaltação da mesma. Nesse caso, os valores que regem a família não são confrontados, mas subvertidos. Dentro dessa perspectiva, a família, quando não se torna um fim em si mesma, é transformada num instrumento para a realização das satisfações pessoais de seus integrantes. Assim é que se propaga a ideia de que a união familiar pode trazer progresso e bem-estar para todos. Mas esse não é o real propósito da família. 

O início da família está na união matrimonial entre um homem e uma mulher. Essa união tem um propósito claro, qual seja, viabilizar que os cônjuges caminhem juntos em busca da salvação, fortalecendo-se mutuamente. E a característica marcante dessa união é o sacrifício. O matrimônio, portanto, realiza uma união sagrada, porque não é estabelecida apenas entre os nubentes, mas entre eles e Cristo. E é uma união centrada no sacrifício de um pelo outro e de ambos por Cristo. Esse significado presente na origem da família, por certo, também se expande para o seu desenvolvimento, com a vinda dos filhos, netos... O propósito da família não é uma união utilitarista ou conveniente de pessoas, tampouco a exaltação de uma ancestralidade sanguínea comum ou a partilha de tradições e costumes. O propósito da família é ser uma pequena Igreja, ter uma vida litúrgica, ou seja, realizar uma obra comum para Deus, o que implica em dar testemunho Dele e viver de acordo com o que Ele espera de nós. Dessa forma, tal qual o matrimônio é a base da família, a família se torna a base da comunidade. E o ethos cristão é um ethos comunitário, desde a origem. Basta vermos como vivia a comunidade cristã da era apostólica.

Assim é que a Igreja precisa encorajar os fiéis a cultivarem uma vida familiar que tenha esse propósito. E ela pode fazer isso de várias formas. Temos visto, por exemplo, a glorificação de sacerdotes casados. A Igreja Antioquina, em 1993, glorificou São José Damasceno, um hieromártir, que era um sacerdote casado. Recentemente, em 2024, glorificou os sacerdotes Nicolau e Habib Kheshe, que eram pai e filho. E, em 2019, realizou um Sínodo dedicado a debater os desafios atuais que a família enfrenta no mundo moderno, que resultou numa encíclica denominada “Família: a Alegria da Vida”, com a síntese do entendimento do Santo Sínodo Antioquino sobre esses temas. Como diretriz a ser observada em cada paróquia, determinou-se que fossem adotadas iniciativas para esclarecer os fiéis sobre tais assuntos e para oferecer o suporte necessário a enfrentar as dificuldades a eles inerentes na vida cotidiana. Em observância a isso, temos feito palestras sobre matrimônio, sexualidade, maternidade, além de tornar a Igreja um local mais acolhedor para a família como um todo, com espaços destinados a mães lactantes, a crianças e jovens.

Mas não basta que a Igreja pregue sobre isso. É preciso, verdadeiramente, espelhar esse compromisso. E a Igreja Ortodoxa, que na sua Santa Tradição, mantém o costume primevo de admitir no clero homens casados, dispõe de um valioso instrumento para testemunhar o papel da família. O presbítero e a presbítera têm uma obrigação além do clérigo celibatário, que é a de oferecerem aos fiéis um ícone vivo do que a Igreja prega como família. Eles têm, por isso, mais do que qualquer outro casal, a obrigação de servirem à Igreja, de levarem seus filhos a ela – não importa quão difícil possa ser essa tarefa -, de cultivarem a fé ortodoxa nas crianças, desde cedo, de preservarem e transmitirem os costumes da fé, de ampararem as demais famílias nas suas dificuldades e de estimularem uma educação ortodoxa. Não é sem motivo que a esposa do presbítero não é chamada, simplesmente, de mulher do padre, mas de presbítera, ou que seja indispensável para a ordenação do marido a anuência por escrito da esposa. O serviço e o sacrifício são de ambos. Ela não apenas consente ou atura que seu marido sirva à Igreja, mas se compromete a servir com ele. 

Portanto, para que a Igreja sobreviva ela precisa de uma comunidade forte e não é possível alcançar isso sem famílias edificadas sobre a rocha da fé, que estejam dispostas ao sacrifício, que estejam unidas por um amor que espelhe o amor da Trindade. A tônica de vida da sociedade brasileira tem repelido essa ideia de família e buscar vive-la de modo solitário pode ser bastante penoso para aqueles que se encorajam a fazê-lo. Mas o caminho para tornar esse desafio menos árduo é a união de famílias ortodoxas em uma comunidade verdadeira, que se ame e se ampare mutuamente, que não apenas se encontre, ocasionalmente, no templo. A Igreja deve ser um catalisador nesse processo e o papel dos clérigos casados e suas esposas têm uma importância invulgar nele.

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