O MONASTICADO EVANGÉLICO – PARTE 4
KAPSANIS Georgios, Arquimandrita
tradução de monja Rebeca (Pereira)
Venerável Serafim de Sarov, o grande hesicasta russo do século XIX, disse que, se fizesses as pazes com Deus, muitas pessoas encontrariam a paz ao teu redor. São Serafim falava de sua experiência pessoal e também da experiência da longa tradição hesicasta da Igreja. Foi bem observado que quanto mais os Padres que estavam em paz com Deus se retiravam para o deserto, maiores eram as multidões de pessoas que se lhes aglomeravam em busca de benefício.
Em casos específicos, os monásticos são chamados pelo próprio Senhor, como foi o caso de Kosmas Aitolos (São Cosme de Etólia), para empreender uma tarefa mais ampla de pregação e despertar. Mas é sempre um chamado de Deus, nunca do ego. Poderia São Cosme realmente ter salvado e iluminado o povo grego escravizado se não tivesse sido primeiro iluminado e polido por vinte anos de ascese monástica, silêncio, purificação e oração?
Os monges não buscam salvar o mundo com atividades pastorais ou missionárias, porque, "sendo pobres de espírito", consideram que dificilmente conseguirão salvar os outros antes de serem salvos. Entregam-se a Deus sem quaisquer planos ou condições. Estão sempre à disposição do Senhor, prontos para ouvir Sua ordem. O Senhor da Igreja convoca os trabalhadores de Sua vinha a trabalharem da maneira que Ele julgar que os salvará e beneficiará. Ele convocou São Gregório Palamas para assumir a proteção pastoral do povo de Tessalônica e para traduzir em terminologia ortodoxa a fé de nossos pais. Convocou São Cosme para sair, pregar e empreender viagens missionárias, enquanto iluminou São Nicodemos, o Athonita, a pregar, sem nunca sair pelo mundo, por meio de seus escritos mais teológicos e espirituais, que até hoje trazem tantas almas a Deus. Outros monges foram chamados a trazer benefícios ao mundo por meio do silêncio e da perseverança, por meio de suas orações e lágrimas, como foi o caso de São Leôncio (Dionísio) de Athos, que, por sessenta anos, nunca deixou seu mosteiro, permanecendo fechado em uma cela escura. O Senhor demonstrou que havia aceitado seu sacrifício, concedendo-lhe o dom da profecia. Após sua morte, mirra fluiu de seu corpo.
Mas o que principalmente torna os monges bem-aventurados a alegria e a luz do mundo é que eles preservam a "imagem de Deus". Na situação antinatural de pecado em que vivemos, esquecemos e perdemos a medida do que significa ser pessoas reais. Os monges bem-aventurados nos mostram como éramos antes da queda e como são as pessoas deificadas, ou seja, a imagem de Deus. E assim os monges são a esperança da humanidade, pelo menos para aqueles que são capazes de discernir nossa natureza real e mais profunda sem os preconceitos de ideologias transitórias. Se as pessoas não podem ser glorificadas, e se não conhecemos pessoalmente pessoas glorificadas, é difícil esperar na possibilidade de superar nosso estado decaído e alcançar o estado para o qual o bom Senhor nos criou, que é a glorificação jubilosa. Como diz São João Clímaco: "Os anjos são a luz para os monges; o estado monástico é a luz para toda a humanidade" (Discurso XXVI).
Assim, por meio do monaquismo, a Igreja preserva a consciência escatológica da Igreja Apostólica, mantém viva a expectativa da vinda do Senhor e também a Sua presença mística entre nós, o fato de que o Reino de Deus está dentro de nós.
A lembrança da morte e da virgindade fecunda impulsiona os monges para a era futura. Como ensina São Gregório, o Teólogo, "[Cristo] nasceu de uma virgem e providenciou a virgindade para que nos conduzisse a outro lugar e encurtasse nossa existência terrena, ou melhor, nos guiasse deste mundo para o próximo, isto é, do presente para o futuro... e ele [Basílio] convenceu as pessoas sobre a verdadeira virgindade, convertendo-as da [apreciação] da beleza externa para a interna, das ações para aquilo que não pode ser visto". Monges virgens em Cristo transcendem não apenas o que é antinatural, mas também o que é natural e, tendo alcançado o sobrenatural, compartilham a condição assexuada dos anjos, sobre a qual o Senhor disse: "Porque na ressurreição não haverá casamento nem união em casamento, mas serão como os anjos no céu" (Mt 22, 30). Como os anjos, monges e monjas permanecem virgens não para obter benefícios práticos para a Igreja (atividade missionária), mas para adorar a Deus "em seu corpo e espírito" (1 Co 6, 20).
Como os monges têm a graça da glorificação mesmo nesta vida presente, eles são um marcador e testemunha para o mundo do Reino de Deus. Segundo os santos Padres, o Reino de Deus é o dom do Espírito Santo que habita em nós. Por meio de monges e monjas glorificados, o mundo conhece "inconscientemente" e vê "invisivelmente" o caráter e a glória da pessoa humana deificada e do vindouro Reino de Deus, que não é deste mundo.
Segundo a teologia de São Gregório de Nissa, a virgindade impõe um limite à morte, como aconteceu com Maria, a Mãe de Deus. A morte reinou desde o tempo de Adão até Ela, pois o que aconteceu com ela foi como uma pedra caindo sobre o fruto da virgindade e se despedaçando. Ela é despedaçada em cada alma, nesta vida transitória, pela virgindade, e seu domínio é derrubado, visto que não há ninguém para apunhalá-la (Sobre a Virgindade, XIV, 1, 25, em S.C. vol. 119, p. 426).
O espírito evangélico e escatológico que o monaquismo preserva também protege a Igreja no mundo de se tornar secular e de se envolver em situações pecaminosas, que se opõem ao espírito dos Evangelhos.
Embora silenciosos e isolados em termos de locus, os monásticos estão espiritual e misticamente no seio da Igreja e, de um púlpito elevado, pregam as reivindicações do Senhor de Tudo e a necessidade de uma vida completamente cristã. Eles orientam o mundo para Jerusalém celestial e para a glória da Santíssima Trindade, como o objetivo universal da criação.
Este é o ensinamento apostólico pregado autenticamente, em todas as épocas, pelo monaquismo, e requer uma renúncia apostólica a tudo e uma vida de cruz. Como os Santos Apóstolos, os monges "deixam tudo para trás", seguem a Cristo e cumprem a Sua palavra: "Todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras, por causa do Meu Nome, receberá o cêntuplo e herdará a vida eterna". "Não tendo nada e possuindo tudo", eles compartilham os sofrimentos, as privações, as tribulações, as vigílias e a insegurança terrena dos Santos Apóstolos.
Mas, como os Santos Apóstolos, eles são dignos de se tornarem “testemunhas oculares da Sua majestade” (2 Pedro 1, 16) e de fazer experiência pessoal da graça do Espírito Santo, para que possam dizer, de modo apostólico, que “Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (1 Timóteo 1, 15), mas também “o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam a respeito do Verbo da vida — esta vida foi manifestada, e nós a vimos, e dela testemunhamos, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada” (1 João 1, 1-2).
Esta visão da glória de Deus e a doce visitação de Cristo aos monges justificam todas as suas lutas apostólicas e fazem da vida monástica uma "vida real" e uma "vida abençoada", que eles não trocariam por nada, mesmo que algum deles a conhecesse por um curto período.
Os monges irradiam esta graça misticamente também aos seus irmãos e irmãs no mundo, para que todos possam ver, arrepender-se, crer, ser consolados, alegrar-se no Senhor e glorificar o Deus misericordioso "que deu tal autoridade aos homens" (Mt 9, 8).
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