DORMIÇÃO

TKACHEV Andrey, Arcipreste 
tradução de monja Rebeca (Pereira)


Podes amar a Cristo como um súdito leal que vive em terras distantes ama o Czar. Ele não o viu pessoalmente, não o olhou nos olhos, mas o ama de todo o coração. Ele pendurou um recorte de revista com seu retrato na parede e se recusa a trabalhar nos dias do Czar.

Mas é impossível amar a mãe do czar de outra forma que não seja sendo admitido nos aposentos internos do czar, estando próximo da vida não apenas do czar, mas também da família do czar, escondido de olhares indiscretos. É preciso ter parentesco com o czar para amar sua mãe e outros parentes.

Diz-se que estas palavras abordam o tema da veneração à Mãe de Deus à distância. Para alcançar esta verdade por analogia, como por um fio. Não somos escravos gritando louvores de longe, mas filhos da família de Deus quando honramos a Mãe de Deus.

Suas festas são secretas. Podem ser sussurradas, especialmente sobre a Dormição. É provavelmente por isso que esta festa é tão apreciada pelos monges.

Aproximar-se dos segredos irradiantes é como aproximar-se de um fogo purificador, e é hora de lembrar de Moisés, que cobriu o rosto ao se aproximar da sarça ardente (Êx. 3:6). Assim diz o kondakion da festa da Dormição: “Protege meus pensamentos, meu Cristo, pois ouso cantar sobre Tua Mãe pura. Fortalece-me no pilar da palavra e protege-me dos maus pensamentos …”

Nos maus pensamentos, interceda...

Os monges entendem isso melhor do que os leigos.

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No dia da Dormição, dizemos que a Mãe da Luz morreu.

Vamos repetir esta frase e colocar um ponto final, de acordo com todas as regras gramaticais. "A Mãe de Deus e Mãe da Luz morreu."

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Depois dessas palavras e desse ponto, um feriado só é possível se "algo mais" tiver acontecido. Caso contrário, não haveria feriado especial. Continuaríamos a celebrar a Entrada no Templo, a Anunciação e a Natividade. Honraríamos Seus numerosos ícones. Mas a Dormição não teria entrado nesta lista brilhante. Teria sido lembrada juntamente com os dias de lembrança dos justos, apóstolos e mártires adormecidos. Teria sido lembrada da mesma forma que, por exemplo, o martírio e os nomes gloriosos de Pedro e Paulo são lembrados.

Todos os santos, tendo sido separados de seus corpos, aguardam a ressurreição dos mortos. Eles já se alegram diante da face de Deus e não temem o futuro, que não lhes reserva nada de terrível, mas apenas a ressurreição da carne, o aumento da glória e a plena entrada no Reino. Todos se divertem, mas apenas em suas almas. Nem toda a pessoa continua a viver, e até que a unidade da alma com a carne ressuscitada seja restaurada, ainda será "nem tudo" diversão, "nem tudo alegria".

O mesmo aconteceria com a Mãe de Deus, se não houvesse mais nada após o ponto final na frase sobre Sua morte. No entanto, há uma festa, e se for grande, é apenas porque o esquife que brevemente conservou o corpo da Mãe de Deus está vazio. Pedro e Paulo aguardam a ressurreição dos mortos. Todos os santos aguardam a ressurreição. Mas a Mãe de Deus não espera nada para Si mesma.

Seu túmulo está vazio, com o mesmo vazio sagrado que marca o túmulo de Seu Filho, Cristo Salvador.

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O estômago se sacia quando está cheio. A casa é rica quando está cheia de todos os tipos de bens. Mas o túmulo é sagrado quando está vazio.

E vazio não pelas mãos de ladrões, blasfemadores ou coveiros, mas pelo poder invencível da Ressurreição!

Assim está vazio o túmulo de Cristo, esta fonte da ressurreição universal. Vazio também está o túmulo da Mãe de Cristo. Por isso é grande a festa da Sua Dormição. Não é chamado o dia da morte, mas o dia da Dormição, pois este sono mortal foi breve.

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Ela foi cercada por uma educação especial, e Sua alma, desde cedo, muito cedo, sentiu o desejo de não se afastar de Deus em pensamento, nem por um instante. Através dos estreitos portões do ascetismo, invisíveis aos olhos humanos, Ela adentrou a vastidão dos mistérios reveladores. Recebeu a doçura de uma Maternidade especial. Ela recebeu a dádiva da obscuridade por toda a vida e de estar à sombra do Filho Divino. O fardo da preocupação maternal por Ele e de segui-Lo silenciosamente foi colocado sobre Seus ombros. Seu coração estava dilacerado por todo o pesadelo inerente ao conceito da Semana Santa. Ela estava indizivelmente feliz com a notícia de que Seu Filho Dulcíssimo estava vivo! Não deveria Ela ser marcada por um destino especial na hora de encontrar o frio mortal?
Apesar de Sua modesta invisibilidade nas páginas do Evangelho, Ela – Maria – é diferente em tudo.

Aqui, os reis e os grandes deste mundo podem parecer para muitos seres quase celestiais ou deuses terrenos, embora na verdade levem a vida de um pecador comum. Eles fofocam, temem, mentem, debocham, caluniam. Morrem desnorteados quanto ao futuro, e a memória de muitos deles se apaga tão rapidamente quanto a sujeira é lavada do asfalto pela pressão da mangueira de um zelador. A verdadeira grandeza se reveste de simplicidade e irreconhecibilidade.

"Porque o Poderoso Me fez grandes coisas, e santo é o Seu Nome", cantou Maria, tendo acabado de conceber Cristo pelo Espírito.

O Poderoso também fez "grandes coisas" com Ela nos dias de Sua morte.

Por um lado, em tudo semelhante a nós, Ela morreu. Mas, por outro lado, em tudo diferente, Ela não foi deixada no sepulcro.

O Filho A levou consigo. Tal, ao que parece, é o Seu amor, que Ele desejou reinar sobre os redimidos somente junto com Aquela que serviu ao mistério da Redenção mais do que qualquer outra pessoa.

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A lenda da Festa está repleta de detalhes sobre Gabriel, sobre o apóstolo Tomé e sobre certo judeu atrevido. A lenda até menciona o salmo que o apóstolo Pedro cantou, liderando o cortejo fúnebre com o corpo da Virgem Maria. Tudo isso está nos hinos da festa e na iconografia. Mas nem sempre precisamos listar essas preciosas características e detalhes do grande evento. Às vezes, vale a pena nos concentrarmos no principal.

O principal é que a Porta pela qual o Altíssimo entrou no mundo nos deixou pelas portas da morte.

Ela partiu a princípio apenas em alma, como convém aos mortais, mas depois foi ressuscitada pelo Filho e deixou a Terra em carne e osso. Seu túmulo está vazio!

Ela partiu, mas não nos deixou. E o tropário da festa nos lembra esta verdade repetidamente: "Em Tua Natividade preservaste Tua virgindade/ Na Dormição não deixaste o mundo, ó Mãe de Deus."

Nós, entre milhões de outras almas batizadas, erguemos nossos olhos para Ela e dirigimos nossas preces. Aqueles que A amam somam centenas de milhares e até milhões. Os salvos por Sua intercessão dificilmente podem ser contados.

Finalmente, nós também morreremos. Não devemos esperar que o Arcanjo Gabriel venha à nossa cama naquele dia. Mas devemos rezar à Mãe de Deus.

O leito de um moribundo assemelha-se ao leito de uma mulher em trabalho de parto, visto que a alma do moribundo nasce dolorosamente para outra vida. Nossa Mãe Celestial frequentemente Se dirige a ambos os leitos para aliviar o sofrimento e ajudar. O cânone de oração para um moribundo doloroso é dirigido especificamente à Mãe de Deus.

Portanto, a Festa da Sua Dormição é também uma festa da nossa esperança comum na Sua ajuda futura naquela hora terrível em que ninguém mais poderá ajudar.

O tropário diz: “Partiste para a Vida, a Mãe da Vida (Mãe da verdadeira Vida), e por Suas intercessões livras as nossas almas da morte.”


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