ENTREVISTA COM O SACERDOTE NEKTARIOS (BICHARA) - PARTE 1
BICHARA Nektarios, Abouna
Sacerdote ortodoxo da Catedral Ortodoxa Antioquia de São Nicolau no RJ
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Bispo Theodore (El-Ghandour) e Abouna Nektarios Bichara por ocasião de sua ordenação sacerdotal |
1) Conte-nos sobre seu percurso na Igreja Ortodoxa, se possível, desde seu batismo até o momento presente.
Minha família materna tem descendência antioquina. Meus bisavós maternos todos imigraram para o Brasil, fugindo da perseguição otomana aos cristãos em Antioquia. Os pais do meu avô materno foram para Santos e, posteriormente, para o Rio de Janeiro e os pais de minha avó materna se estabeleceram em Petrópolis.
Enquanto vivos, eles mantinham uma maior ligação com a Igreja, que, contudo, foi se dissipando nas gerações seguintes. Um processo que se repetiu, de forma geral com toda a comunidade ortodoxa. Ainda bebê, fui batizado na Igreja Ortodoxa, na Catedral de São Nicolau, no Rio de Janeiro.
Apesar disso, justamente pelo afastamento da Igreja acima mencionado, não recebi uma instrução na Fé Ortodoxa quando criança e a frequência à Igreja Ortodoxa se limitava à Semana Santa, batismos e liturgias fúnebres de familiares.
Em verdade, minha formação religiosa e meu maior contato com a fé, na infância, se deu em relação ao catolicismo latino, até porque estudei sempre em instituições de ensino a ele vinculadas.
Mesmo com esse contato extremamente restrito com a ortodoxia, desde pequeno, aquele ambiente me encantava. Cada vez que eu entrava na Igreja Ortodoxa eu sentia o desejo de ficar ali, em meio ao aroma do incenso, à luz das velas, aos cânticos angelicais, ao rito reverente, enfim aos diversos aspectos que compõe a beleza da sacralidade ortodoxa. Voltava para casa e ficava ansioso pela próxima ocasião em que meus avós me levariam à Igreja.
Em minha juventude, graças à popularização da internet, pude começar a buscar conteúdos sobre ortodoxia - ainda bastante escassos -, e o que era uma atração muito centrada em aspectos externos da fé ortodoxa estendeu-se, também, aos aspectos internos, ou seja, à doutrina e à espiritualidade. Ao mesmo tempo, tendo adquirido independência para poder ir à Igreja sozinho, sem precisar ser levado por um responsável, passei a frequentar a Catedral de São Nicolau todos os domingos.
Minha aparição na Igreja despertou a curiosidade dos fiéis, já nessa época em número bastante escasso. Eu era o único jovem na comunidade. Depois de mim, o mais jovem era o Abdulmasih (atualmente, Padre Simão), sendo que entre nós há uma diferença de mais de vinte anos de idade. Por isso logo me chamaram para participar do coro, o que aceitei, prontamente, sem saber, ao certo, como poderia contribuir, já que não conhecia o canto bizantino, tampouco dominava o árabe - idioma em que ainda se cantava parte considerável das músicas. Ainda assim, pareceu-me claro que era preciso trabalhar pela Igreja para que ela tivesse continuidade. E, desse jeito, começou meu serviço à Igreja.
Nessas circunstâncias, pela primeira vez, ouvi de um arquimandrita que aqui serviu, a pergunta se eu gostaria de ir para o Líbano estudar teologia e seguir a vida religiosa. Apesar da alegria que eu tinha de estar na Igreja e de servi-la, minha juventude não me permitiu compreender ali um chamado e pareceu-me algo muito distante da minha vida. Eu pretendia casar e ter filhos e, mesmo sabendo que existe o clero branco na Igreja Ortodoxa - ao qual, hoje, pertenço -, essa era uma realidade praticamente inexistente no Brasil, senão pela experiência de alguns padres estrangeiros que para cá vieram com suas famílias, amargando dificuldades várias para conduzi-las.
Os anos seguintes foram tristes para a história da Igreja Ortodoxa Antioquina no Rio de Janeiro, já há muitos anos sem um bispo que a guiasse, afastada, na prática, do Patriarcado, marcada por disputas internas à comunidade e entre esta e os clérigos que restaram, que não eram capazes de difundir e defender a Ortodoxia, por inúmeras razões. Durante esse período, pelas dificuldades acima elencadas e porque, em razão de meu emprego, tive de mudar de cidade, fiquei mais afastado da Catedral de São Nicolau e aproximei-me da Igreja Ortodoxa Antioquina de São Paulo, onde fui bem acolhido e, mais tarde, cheguei a me casar lá.
Ao longo desses anos, mantinha constantes reuniões e conversas com Abdulmasih (hoje, Padre Simão) e outros membros mais antigos da comunidade em busca de uma solução para os problemas que o Vicariato vinha enfrentando há tantos anos, a ponto de quase cessar sua atividade.
Nesses anos em que estive próximo à comunidade ortodoxa antioquina de São Paulo, desenvolvi duas profundas amizades que mudariam minha forma de compreender a fé. Os exemplos de vida e serviço do padre Damaskinos Abdullah e do, então hipodiácono, e atualmente padre, Paísios Diaz, fizeram-me entender que a minha fé – que eu supunha ser robusta – era bastante frágil e que não era suficiente que a Igreja tivesse grande importância na minha vida. Ao olhar para eles e conviver com eles, entendi que a fé deveria permear todos os aspectos da minha vida e que minha vida deveria ser dedicada a Deus, através do serviço à Sua Igreja.
A partir de então, e já noivo, uma hipótese começou a ser cogitada, por mim e minha noiva: E se eu fosse um clérigo...
Essa possibilidade já não me parecia estranha como no início da minha juventude, mas ainda parecia improvável. A minha vida estava estruturada num lugar em que a Igreja estava definhando.
Depois que me casei com minha esposa (Presbítera Maíra), esse desejo de nos dedicarmos cada vez mais à Igreja foi crescendo. Como todo casal, pensávamos no futuro da família que formaríamos. Esperávamos ter condições de assegurar uma formação e proteção adequada para nossos filhos, em termos de saúde, educação etc... mas, nossa grande angústia era: como garantiremos que eles caminhem para a salvação, diante do risco de não terem uma Igreja para participar?
Quanto mais pensávamos sobre isso, mais importância dávamos a essa questão, compreendendo, por fim, que ela não apenas era muito relevante, mas era a principal preocupação que deveríamos ter. Nenhum pai espera por isso, mas acontece de crianças e jovens morrerem. E se isso acontecesse, de nada teria servido a preocupação com outras questões. Tudo o que elas precisariam não seria boa educação, saúde ou lazer, mas uma relação íntima com Deus. E mesmo se vivessem longos anos de uma vida de sucessos, também de nada teria valido, se, ao fim, fossem indiferentes a Deus ou, pior, seus rivais.
Justamente em meio a essas angústias, pela misericórdia divina, após mais de uma década de desalento, e perto de um fim iminente, a situação da Igreja Ortodoxa Antioquina, tomou um novo rumo, com a designação de um novo bispo como Vigário Patriarcal. Em 2018, Dom Theodore Ghandour, Bispo de Apamea, numa Quinta-Feira Santa, chegou ao Rio de Janeiro para resgatar a Igreja Ortodoxa.
Desde sua designação como Vigário Patriarcal, coloquei-me à sua disposição para auxiliar como pudesse na árdua tarefa de construir uma ortodoxia verdadeira no Rio de Janeiro. De início, trabalhamos, conjuntamente, para a reorganização jurídico-administrativa do Vicariato, mas, logo percebemos que a maior necessidade de auxílio seria na renovação do clero que Dom Theodore viria a empreender.
Aceitei, assim, servir à Igreja como clérigo, esperando que essa caminhada pudesse evoluir de forma gradual e serena, sobretudo porque eu mantinha um trabalho fora da Igreja e estava prestes a ser pai do meu primeiro filho. Além disso, eu não tive a oportunidade de estudar num seminário. Mas, a necessidade se impôs e as ordenações ocorreram em breve espaço de tempo.
Fui ordenado Hipodiácono no Domingo de Ramos de 2020, um ano marcado pela pandemia de Covid-19, inclusive, pelo temor das pessoas de irem à Igreja. Recebi um dos maiores presentes de minha vida, o nome de Nektários. Foi uma grata surpresa. Se pudesse escolher, pensava em José Damasceno, mas sabia que Dom Theodore seguia a tradição de ele próprio escolher os nomes dos clérigos e só revelar no momento da ordenação. Ouvir esse nome, em meio à oração, foi um motivo de enorme felicidade. E poder, a partir daí, me aproximar deste santo magnífico, agora como meu padroeiro, foi algo transformador para mim. Na Festa da Natividade da Theotokos, no mesmo ano, fui ordenado diácono. E na Festa de Pentecostes, de 2022, fui ordenado sacerdote. Desde então, sirvo como padre na Catedral de São Nicolau.
2) Pelo fato de ter crescido ortodoxo, acredito que o senhor tomou parte de muitos acontecimentos da vida do Vicariato do Patriarcado Antioquino no RJ. Poderia nos situar sobre a história do Vicariato e seus representantes e membros até os dias de hoje?
Esse é um assunto que procuro analisar sempre de forma objetiva. Sem julgamentos, mas sem negar os fatos. Porém, ele acaba gerando certo desconforto entre os convertidos e os descendentes dos imigrantes ortodoxos, por uma diferença de perspectiva, que acho importante seja aclarada para ambos. Não vou me deter nos detalhes da história do Vicariato, pois há, aqui mesmo no blog, matérias que detalham mais a sucessão dos acontecimentos desde a fundação da Igreja Ortodoxa Antioquina no Rio de Janeiro. Prefiro examinar o processo de transformação da comunidade.
A primeira coisa que precisamos ter em mente é que a ortodoxia não chegou ao Brasil a partir de atividades missionárias. Ela foi trazida por imigrantes que eram perseguidos em suas terras por conta da fé que professavam e que os submetia a um rebaixamento social do qual desejavam escapar. Isso quer dizer que, os primeiros ortodoxos a chegarem aqui não desejavam evangelizar o Brasil, mas sim viver a Fé Ortodoxa na sua comunidade de imigrantes, como o faziam em seus países de origem, antes das perseguições. Além disso, a sua fuga para o Brasil não tinha por objetivo apenas ou primordialmente viver a Fé Ortodoxa livremente, mas escapar da subjugação otomana em todos os aspectos de suas vidas (social, econômico, cultural e religioso), que tinha por motivação a religião, mas não se circunscrevia à religiosidade.
Esses imigrantes, assim, chegavam aqui na expectativa de reorganizarem suas vidas como um todo, inclusive no aspecto religioso. Para isso, fundaram uma entidade, denominada Sociedade Ortodoxa São Nicolau, a qual não se prestava apenas a fortalecê-los na fé, mas sim à manutenção de sua herança árabe. Quero dizer com isso que a Igreja, para eles, representava não apenas a expressão da sua fé, mas da sua cultura, das suas raízes, de seu idioma, seus costumes etc. Isso gera um efeito contraditório. Por representar tudo isso, a Igreja acabava ocupando um lugar central na vida desses imigrantes, que desejavam morar perto dela, estar presentes nela, atuar na sua organização, financiá-la, enfim, participar dela ativamente. Tal importância dada à Igreja, permitiu, por exemplo a obtenção de recursos para a construção do templo e doação de bens de onde pudesse vir o sustento da Igreja. Todavia, como efeito contrário, por representar muito mais do que devia, o papel essencial da Igreja ficava em segundo plano. Numa imagem, tinha-se uma Igreja cheia de gente, mas vazia de fiéis.
Em defesa, porém, desses imigrantes, precisamos lembrar que, eles escaparam do jugo otomano, mas a Igreja Antioquina permanecia sobre ele. Daí ser preciso entender que, enquanto estavam em suas terras, antes de imigrarem, já viviam sob uma opressão que prejudicava que recebessem uma adequada instrução da fé, e que a vivessem plenamente. E depois de terem imigrado, tinham a dificuldade de trazerem para cá clérigos que pudessem realizar aqui o que não era possível realizar lá. Pois se lá mesmo havia deficiências no clero, quanto mais para enviar para uma terra estrangeira e desconhecida onde poucos fiéis se haviam estabelecido.
Apesar disso, essa comunidade inicial foi capaz de se organizar, construir a Catedral, provê-la de bens que pudesse sustentá-la e trazer clérigos que pudessem servir à comunidade, tal qual em sua terra de origem, portanto, rezando em árabe.
Algum tempo depois, foi designado para cá o primeiro Bispo Ortodoxo do Brasil, Dom Michel Chehade, não por ser a primeira ou a maior comunidade ortodoxa antioquina do Brasil – que não era -, mas porque aqui era a capital. Ele, contudo, depois de pouco tempo preferiu mudar sua sede para São Paulo, onde a comunidade era mais pujante e ele pôde realizar mais obras, tendo chegado a construir escolas ortodoxas lá. Foram, então, enviados sucessivos padres sírios para servir à Igreja do Rio de Janeiro, inclusive o que, mais tarde, tendo retornado à Síria, se tornaria o Patriarca Elias IV.
A comunidade ressentiu-se de não ter um bispo aqui, embora não pelos motivos certos. Para a maioria, o inconformismo vinha por um imaginado rebaixamento do status social. Achavam que um bispo engrandeceria a entidade da qual faziam parte. O motivo era errado, mas, realmente, a falta de um Bispo era muito prejudicial. Como nos ensina Santo Inácio de Antioquia, onde está o Bispo, aí está a Igreja. E uma Igreja sem um Bispo efetivamente conduzindo-a não poderia prosperar e se solidificar. Quem fomentaria e identificaria vocações? Quem ordenaria novos clérigos? Quem conduziria a comunidade num processo de transformação pela mudança geracional?
A geração seguinte já começava a se distanciar dos valores de seus pais. Muitos já não dominavam o árabe, já não moravam perto da Igreja, já não tinham o mesmo vínculo com a fé e já não tinham sequer o mesmo desejo de preservação da herança cultural que a Igreja também representava e que, em certo aspecto, a fortalecia. Pior, já não tinham interesse em viver circunscritos àquela comunidade de imigrantes e descendentes, mas desejavam ser incluídos na sociedade brasileira e a sua fé poderia ser um obstáculo a isso, por exemplo, para se casar com um cônjuge não ortodoxo. Esse processo foi se agravando cada vez mais, nas gerações seguintes e a Igreja passou a ser vista como a Igreja dos antepassados, mas não de si próprio.
Com a chegada do Arquimandrita Georges El Hajj, na década de 1950, a Igreja passou a ter uma maior estabilidade no clero e uma figura de liderança e carisma, que foi capaz de frear e, em certo aspecto, retroagir esse processo de distanciamento dos fiéis em relação a ela. Contudo, isso não se deveu apenas a um fortalecimento da fé, mas a uma atuação comunitária para além da seara espiritual e a uma flexibilização de posições ortodoxas, por exemplo, com uma abertura ao ecumenismo e ao casamento misto.
No final da década de 1960, ele foi elevado ao episcopado, tornando-se Bispo do Rio de Janeiro, até seu adormecimento, no ano 2000. Nesse período, foi responsável pela fundação de Igrejas Ortodoxas também fora do Rio de Janeiro, como em Goiás. Foi dele a primeira iniciativa de atividade missionária ortodoxa no Brasil tendo fundado comunidades na baixada fluminense e ordenado clérigos brasileiros para elas. Lamentavelmente, porém, tais clérigos não tinham um passado ortodoxo, uma formação ortodoxa e, alguns deles, nem mesmo uma moral ortodoxa. E, pois, o resultado foi, digamos assim, bastante heterodoxo, salvo por uma comunidade em Imbariê que ainda remanesce e, que, inclusive, ofereceu à Igreja uma vocação sacerdotal, o hoje Padre Nicolau, que a dirige.
Esse processo de mutação da comunidade foi bastante desafiador. Era uma comunidade meio árabe meio brasileira. As gerações mais novas já não tinham uma fé ardente e, ainda, tinham de lidar com a barreira da língua. Elas não entendiam boa parte do que era rezado. Por outro lado, os mais antigos queriam que tudo permanecesse como antes, inclusive com as orações em árabe, e, se eles já não eram a maioria da comunidade, ao menos eram a maioria dos fiéis que frequentavam regularmente a Igreja. O equilíbrio desses interesses era difícil e a tendência de manter as coisas como sempre foram prevalecia. Além disso, realizar essa mudança exigia um árduo trabalho de tradução e faltava gente capacitada e disposta a se lançar nele.
Os anos finais de seu bispado foram marcados pela fragilização de sua saúde, o que já não lhe permitia ter a mesma disposição para atuar congregando a comunidade e para pacificar disputas internas pelo comando da Sociedade Ortodoxa São Nicolau. O resultado disso, aliado ao agravamento das circunstâncias que apelavam para um abandono da ortodoxia pelos fiéis, cada dia mais incorporados ao modo de viver brasileiro, acentuou o declínio da comunidade e da Igreja.
A sua sucessão por Dom Dimitrios Hosni não reverteu esse processo, pois, a despeito da humildade marcante desse novo bispo, seu episcopado foi curto, devido a problemas de saúde graves que, desde o início lhe fragilizaram. Depois dele, a Igreja entrou num período soturno de ausência de bispo, distanciamento do patriarcado e sujeição a clérigos descompromissados com o soerguimento da Igreja. A comunidade minguou e passou a relacionar-se com a Igreja de forma quase simbólica. Não se buscava mais a fé, senão apenas a beleza dos ritos de batismo e matrimônio e a memória de seus antepassados nos ritos fúnebres e nas celebrações da Sexta-Feira Santa e da Páscoa. De resto, o que para eles era a “igreja católica do oriente” não lhe dizia mais respeito.
A situação era tão grave e o desinteresse da comunidade tão grande, que até as lamentáveis disputas internas de grupos que se opunham sobre a direção da Sociedade Ortodoxa São Nicolau deixaram de existir por inanição. Diante desse quadro, a diretoria da sociedade foi ao Líbano, encontrar o Patriarca e pedir que tomasse uma decisão definitiva sobre o vicariato, seja designando um Bispo como vigário patriarcal, seja submetendo-o à jurisdição da Arquidiocese Ortodoxa Antioquina de São Paulo e Todo o Brasil, seja encerrando a atuação da Igreja no Rio de Janeiro. E, numa última tentativa de salvar essa comunidade, o Patriarca enviou Dom Theodore Ghandour como Vigário Patriarcal, em 2018.
A primeira medida por ele adotada foi convencer os membros da Sociedade Ortodoxa São Nicolau da necessidade de a Igreja atuar e ser compreendida como tal e não como um clube associativo. Desse modo, trabalhamos para a aprovação de um novo estatuto social da entidade que refletisse, efetivamente, a institucionalização da Igreja, alterando a sua natureza jurídica de sociedade civil para organização religiosa, abrindo sua participação a todos os fiéis ortodoxos do Rio de Janeiro pertencentes à Igreja Antioquina, homens ou mulheres, excluindo as previsões de categorias distintas de membros, de contribuições financeiras obrigatórias, bem como instituindo uma gestão compartilhada da entidade, entre o Vigário Patriarcal e os integrantes dos Conselhos Administrativo, Deliberativo e Consultivo, sempre, porém, com preponderância das decisões do Vigário Patriarcal, em qualquer assunto, e com a reserva de deliberação exclusiva desse sobre os assuntos religiosos.
Essa reforma foi aprovada com amplo apoio de representantes dos grupos que antes rivalizavam pela direção da antiga sociedade, concretizando uma medida pacificadora da comunidade e sinalizadora da priorização da Igreja e do desenvolvimento da fé ortodoxa sobre qualquer outro aspecto de interesse da comunidade.
A partir dessa mudança significativa, começou-se a reestruturar a parte administrativa do Vicariato, mas, sobretudo, a desenvolver uma espiritualidade verdadeiramente ortodoxa, a reorganizar o clero, estabelecer os serviços litúrgicos corretos, a ensinar a fé ortodoxa aos interessados e a abrir a Igreja a todos. E Deus respondeu a esses esforços, enviando, gradualmente, novos interessados em se converterem à ortodoxia, que, ao longo dos anos foram aumentando em quantidade e que vem tendo um importante papel de renovação da comunidade, não apenas numérica, mas qualitativamente.
Esses novos fiéis não têm outro interesse na ortodoxia, senão o de entrarem em comunhão com Deus, participando de sua única e verdadeira Igreja. E por isso, eles não querem menos ortodoxia. Não querem uma ortodoxia “à brasileira”, com adaptações e flexibilizações. Eles almejam uma ortodoxia plena. Eles olham o descaso da antiga comunidade com a Igreja e têm dificuldade de entender como aqueles que receberam de presente, desde o berço, esse tesouro, não zelaram por ele. Essa perplexidade é compreensível, mas insistir nela não traz nenhum proveito.
Mesmo não honrando como deveriam a sua fé, foram os antigos membros da comunidade que construíram a Igreja que hoje acolhe esses novos membros e que, mesmo “aos trancos e barrancos”, a mantiveram viva até que esses fiéis mais novos pudessem ingressar nela e ter a oportunidade de agirem de modo mais reverente em relação a ela.
Precisamos compreender que não podemos olhar para o que existe no Patriarcado de Antioquia hoje, nos países de origem, e projetar para um passado na diáspora. Porque o que existe atualmente lá, não existia no passado, para que pudesse ter sido trazido para cá. Não podemos perder de vista que, Antioquia é uma Igreja de resistência e martírio. E, como na época dos mártires, a prioridade não era, construir templos e desenvolver os serviços litúrgicos, mas guardar o cerne da fé, também hoje não podemos esperar que Antioquia tenha a mesma condição de se desenvolver e de amparar a diáspora tal qual jurisdições que não vivem sob o peso das perseguições.
Então, como disse no início, essa transformação da comunidade não deve ser analisada com olhos de julgamento, mesmo porque, além das questões que citei aqui, existem diversas outras, bastante complexas, que explicam – mesmo não justificando – as dificuldades que a antiga comunidade teve de lidar com sua fé ortodoxa aqui no Brasil. A compreensão desse processo exige que se entenda não só o que se passava aqui, mas também o que se passava lá nos países de origem, num momento que tudo era muito diferente do que é hoje.
O que mais interessa é que uma semente da ortodoxia foi plantada e cultivada – não importa se bem ou mal -, tendo gerado uma árvore que agora está sob os cuidados de novos lavradores que poderão ajudá-la a dar muitos frutos, se assumirem, com zelo, amor e reverência, as responsabilidades que lhe cabem.
3) Sabemos que a Catedral Ortodoxa Antioquina de São Nicolau no RJ acolhe muitos catecúmenos e interessados pela Fé Ortodoxa. Como o senhor vê este fenômeno atual de muitos jovens, principalmente rapazes, se aproximarem e quererem se aprofundar na vida da Igreja Ortodoxa?
Antes de mais nada, enxergo esse processo como uma demonstração concreta de como Deus não abandona Sua Igreja. Quem viu o ponto a que chegou a Igreja Ortodoxa Antioquina no Rio de Janeiro, prestes a acabar, e agora participa de seu vigoroso renascimento, só pode ser muito grato a Deus por ter operado esse milagre. É verdade que muita coisa mudou, mas isso, por si só, não explicaria esse movimento. Desde a chegada de Dom Theodore, temos feito um esforço grande para corrigir erros passados, para divulgar a fé e para tornar a ortodoxia mais plena onde ela sempre foi parcial. Mas nunca saímos a campo buscando atrair pessoas ativamente. Elas, simplesmente, foram aparecendo e nos procurando. E isso me lembra a passagem de Lucas 5: 2-11. Nós vínhamos de uma pesca infrutífera, mas, por Deus, jogamos as redes novamente e Ele as vem enchendo abundantemente, contra todas as probabilidades. Evidente que os problemas não desapareceram e os desafios não cessam, mas há uma esperança de que se nós trabalharmos certo, conforme a vontade de Deus, Ele proverá tudo, até mesmo a comunidade.
No meu entendimento, a continuidade desse processo de atração de novos catecúmenos e fiéis depende, essencialmente, da manutenção desse compromisso de fidelidade integral à Ortodoxia. Quanto mais batalharmos para estabelecer plenamente a Ortodoxia no Brasil, mais receberemos essas bênçãos de Deus.
Esses jovens que têm aparecido, em sua maioria ex-protestantes, mas também ex católicos latinos, tem uma sede comum, eles desejam um encontro verdadeiro e profundo com Deus. Estão cansados de superficialidade. Viveram experiencias anteriores que lhes apresentavam Deus como uma ideia, como um sentimento, como alguém com que se deve relacionar tal qual um fã em relação ao ídolo. E isso não supriu o vazio que sentiam. Essa sensação de que algo continua faltando e de que o que se apresenta a eles como Igreja não parece ser muito fiel aos ensinamentos de Cristo e ao que os apóstolos viveram, geralmente, os move a buscar, na história da Igreja, descobrir onde a essência do Cristianismo foi preservada. Eles chegam, então, à Igreja Ortodoxa em busca dessa essência, que lhes parece estar resguardada aqui, protegida pela Santa Tradição. E, de fato, está. Aqui eles aprendem a conhecer a Deus espiritualmente. Revela-se a eles um Deus pessoal que não está distante deles, mas que se relaciona diretamente com eles em Suas energias, que Se oferece a eles como alimento eucarístico, que permite a eles se tornarem pela graça o que Ele é por natureza. Aquele vazio que os impeliu a procurar a Igreja vai sendo preenchido e eles compreendem que isso não é por acaso, mas porque tudo na ortodoxia é feito com profundidade, a espiritualidade, a doutrina, a experiência litúrgica...
É claro que, por vezes, pessoas se aproximam da Igreja Ortodoxa com intenções ou compreensões equivocadas. Alguns confundem o caráter místico de nossa teologia, com misticismo e se frustram ao descobrir que são coisas distintas. Sempre lembro de um catecúmeno (esse não era jovem), que chegou muito entusiasmado porque leu sobre Teosis e queria experimentá-la. Eu expliquei que era ótimo que ele tivesse esse desejo, mas que isso não era muito simples e exigia uma mudança profunda. Curiosamente, ele me relatou aspectos da sua vida que não condiziam com os mandamentos de Deus e, ainda, revelou que não se arrependia de nada do que já fizera na vida. Então, eu tive de dizer a ele que sem arrependimento a pretensão dele de ver a Luz Incriada não se realizaria. Ele preferiu seguir sua vida impenitente e nunca mais voltou. Mas isso também é importante. Não recebemos pessoas a qualquer custo, nem as preparamos a toque de caixa. Respeitamos a sacralidade do Batismo. Não temos interesse em números. Não buscamos plateia. Queremos espíritos arrependidos.
Em um primeiro momento, os interessados eram todos homens, mas, através deles, suas mães, esposas, filhas, irmãs, namoradas, se aproximaram para conhecer a Igreja e também se converteram. Agora, já começamos a ver jovens mulheres que sozinhas mesmo se aproximam e se tornam catecumenas. E esse aumento gradual da participação feminina, vai encorajando outras mulheres e desmistificando a ideia equivocada de que a ortodoxia seria para homens. Vemos, por exemplo, uma gradual retomada do uso do véu na Igreja. O curioso é que dentre as mulheres convertidas, isso é feito sem nenhum tipo de constrangimento ou de sentimento de depreciação, que, não raro está presente dentre as mulheres nascidas de famílias ortodoxas e que sempre frequentaram a Igreja.
Também outras práticas ortodoxas são melhor aceitas pelos convertidos do que pelos fiéis mais antigos, como, por exemplo, o jejum, a confissão, a participação nas vigílias, a oração pessoal e até a reverência ao clero. Não fossem os convertidos, poucas pessoas se lembrariam de pedir a bênção a um sacerdote. E isso, como falei há pouco, é em razão desse desejo por uma fé profunda que eles nutrem. Eles anseiam por uma ortodoxia plena, por algo que realmente se distinga das experiências anteriores que viveram. Não por outra razão, essa visão ecumênica que tenta dissipar a Verdade - que alguns pretendem fazer prevalecer (às vezes, à força) na Ortodoxia -, para eles é estranha e não faz sentido. O que eles esperam do clero é que reajam a isso, diferentemente de parte dos fiéis nascidos e criados na ortodoxia, que cedem a esse discurso de que o amor deve prevalecer entre todos (numa estranha concepção de amor apartado da Verdade).
Em síntese, me parece que quanto mais nós formos ortodoxos, mais ortodoxos Deus nos revelará.
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