Homilia no Quarto Domingo da Grande Quaresma. O Significado do Jejum na Luta contra os Espíritos Decaídos
Santo Ignácio (Brianchaninov), bispo do Cáucaso e Stavropol
tradução de monja Rebeca (Pereira)
O Senhor comenta com Seus Seus Apóstolos acerca dos espíritos malignos, dizendo: Esta casta não pode sair por nada, a não ser pela oração e pelo jejum (Mc 9:29). Eis um novo aspecto do jejum! O jejum é aceitável a Deus quando é precedido pela grande virtude da misericórdia; o jejum prepara uma recompensa no céu quando é estranho à hipocrisia e à vanglória; o jejum dá prospera quando é unido a outra grande virtude — a oração. Como funciona? Ele não apenas doma as paixões no corpo humano, mas entra em batalha com os espíritos do mal e os vence.
Como o jejum, que na verdade é um podvig corporal [esforço ascético], pode funcionar ou cooperar com a oração na guerra contra os espíritos? Por que os espíritos sem corpo se submetem ao poder que o jejum tem sobre eles?
Os espíritos malignos e obscuros cometeram dois crimes graves:[1] o primeiro crime causou sua expulsão das hostes de santos anjos; o segundo crime foi a causa de seu banimento irrevogável. Eles levantaram, assim, seus calcanhares contra Deus no céu. Seu chefe, cego pela presunção, queria se tornar igual a Deus. Por seu crime, foram lançados do céu para a terra abaixo, e lá começaram a invejar a bem-aventurança do homem recém-criado. Cometeram, doravante novo crime: seduzir homem e atraí-lo à mesma queda. Este último crime dos anjos caídos finalmente decidiu seu destino — a graça de Deus se afastou completamente deles; foram entregues a si mesmos, ao seu próprio mal e ao seu próprio pecado que haviam concebido e carregado em si mesmos, e que permitiram penetrar em sua natureza. Agora, um bom pensamento ou sentimento nunca virá a um anjo rejeitado. Ele está totalmente submerso no mal, deseja o mal e inventa o mal. Queimado com uma sede insaciável pelo mal, ele busca ser saciado com o mal, mas não consegue. Todo o mal que ele faz ou pode realizar parece-lhe pouco perto do mal que ele imagina e que sua sede insuportável pelo mal busca. Criado como um anjo portador de luz, é lançado mais baixo do que todas as bestas da terra por seus crimes. Porque fizeste este assassinato de um homem, disse Deus em Sua ira a Satanás quando o pegou na cena do crime no paraíso, perto do homem e da mulher que ele havia feito cair, amaldiçoado serás dentre todo o gado, e dentre todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida (Gn 3:14). Um espírito sem corpo é condenado a pensamentos e sentimentos que são apenas terrenos e apaixonados; sua vida e tesouro estão neles. Um espírito, ele perdeu a habilidade de fazer qualquer coisa espiritual — ele está completamente absorto em obras carnais. Um espírito que vive uma vida mental é rebaixado das hostes de espíritos para um estado carnal, e ele assume um lugar mais baixo em classificação do que todo o gado e animais da terra. Gado e animais agem de acordo com as leis de sua natureza, enquanto o espírito caído, que é misturado à natureza do gado e animais, é misturado a uma natureza que é estranha à sua própria, e humilhante.
Essa materialidade pecaminosa do anjo caído o torna sujeito ao efeito do jejum, que liberta nosso espírito do reinado da carne. Quando o anjo caído se aproxima de uma pessoa que está jejuando, ele não vê a dominação material que ela precisa e deseja; ele não pode agitar o sangue que foi beneficamente resfriado pelo jejum; ele não pode despertar a carne que não está inclinada a brincar, pois foi contida pelo jejum; a mente e o coração não são obedientes a ele, pois sentiram um vigor espiritual especial devido ao jejum. Vendo essa resistência, o espírito orgulhoso e caído parte, porque ele não pode suportar ser resistido ou contrariado. Ele ama o acordo e a submissão sem hesitação. Apesar do fato de que ele rasteja sobre sua barriga, apesar do fato de que ele come apenas pó, o pensamento de ser como Deus não o deixou, e ele procura pessoas para adorá-lo.
Audaciosamente mostrou ao Filho de Deus todos os reinos do mundo em um momento de tempo, e prometeu dar-lhe todo o poder sobre eles e a glória deles, exigindo ser adorado em troca (Lc. 4:5-7). Mesmo agora, ele não cessa de apresentar àqueles que seguem o Filho de Deus toda a beleza do mundo, pintando-a em seus sonhos com as características e cores mais tentadoras para extrair adoração de si mesmo por qualquer truque. Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós, disse o apóstolo Tiago (Tg. 4:7); e outro apóstolo disse: Acima de tudo, tomando o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno (Ef. 6:16). Levantemos nossos olhos para a eternidade através do poder da fé, para a bem-aventurança indizível que aguarda os justos na eternidade; da mesma forma, observemos os tormentos igualmente indizíveis que aguardam os seguidores impenitentes e teimosos da serpente. Podemos ter tal contemplação quando o corpo é colocado em ordem e mantido dentro da ordem do jejum; quando com a oração pura que só é obtida através do jejum, nos apegamos ao Senhor e nos tornamos um só espírito (1 Cor. 6:17) com Ele. “A serpente rasteja continuamente sobre o chão como foi sentenciada a fazer do Alto”, diz São João Crisóstomo. “Se desejas estar a salvo de sua picada venenosa, deixe sua mente e coração estarem sempre acima da terra.”[2] Assim, serás capaz de resistir-lhe, e aquela serpente orgulhosa , não podendo mais suportar resistência, fugirá.
Onde estão as pessoas que são possuídas por espíritos malignos? Onde estão aquelas pessoas que ele rasgaria e atormentaria, como ele rasgou e atormentou o jovem mencionado hoje nos Evangelhos? Aparentemente não há nenhuma, ou elas são muito raras — assim raciocina a pessoa que vê tudo superficialmente e traz sua vida como um sacrifício para distrações e prazeres pecaminosos. No entanto, os Santos Padres viam as coisas de forma diferente. Eles dizem: “A partir do momento em que fizeram o homem ser exilado do paraíso e separado de Deus pela desobediência, o diabo e os demônios receberam a liberdade de agitar mentalmente a natureza racional de qualquer pessoa, tanto de dia quanto de noite.”[3] Muito semelhantes a esses tormentos e dilaceramentos do corpo do jovem do Evangelho pelo espírito maligno são os sofrimentos da alma que se submete voluntariamente à influência do espírito maligno e que aceita como verdade aquela mentira assassina que o diabo incessantemente nos mostra para nos fazer perecer, escondendo-a atrás de uma fachada de verdade para nos enganar mais facilmente e ter sucesso em sua maldade. Sede sóbrios, vigiai, adverte-nos o apóstolo Pedro, porque o vosso adversário, o diabo, anda em derredor, como leão que ruge, buscando a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé (1 Pe 5,8-9). O que o anjo caído usa contra nós? Principalmente pensamentos e fantasias pecaminosas. Ele foge daqueles que resistem a ele, mas ele balança, atormenta e destrói aqueles que não o reconhecem, que entram em conversa com ele e se confiam a ele. Ele próprio rasteja sobre sua barriga e é incapaz de pensamento espiritual. Ele descreve vividamente este mundo transitório com todas as suas atrações e prazeres; enquanto isso, ele entra em conversa com a alma, flertando-a a tornar em realidade seus sonhos impossíveis. Ele nos oferece glória terrena, ele nos oferece riquezas, ele nos oferece saciedade e deleite nas impurezas carnais. Como São Basílio, o Grande, expressa, o diabo não apenas recebeu um sentimento pelas impurezas carnais, mas, uma vez que ele foi criado como um espírito sem corpo, ele as deu à luz.[4] Ele apresenta tudo isso como uma fantasia, mas também fornece maneiras ilícitas de realizar esses sonhos ilícitos. Ele nos lança na tristeza, depressão e desespero. Em uma palavra, ele trabalha incansavelmente para obter nossa destruição de maneiras aparentemente decentes e também indecentes: pelo pecado óbvio, pelo pecado escondido atrás de uma boa fachada e lançando a isca do prazer diante de nós.
Esta é a vitória que vence o mundo, até mesmo a nossa fé, diz São João, o Teólogo (1 Jo 5:4). A fé é nossa arma de vitória sobre o mundo; é também nossa arma de vitória sobre os anjos caídos. Quem olhou com os olhos da fé para a eternidade proclamada pela Palavra de Deus e não se arrefeceu diante da beleza passageira do mundo? Que verdadeiro discípulo de nosso Senhor Jesus Cristo desejará pisotear Seus mandamentos santíssimos por causa do prazer pecaminoso, que parece atraente antes de ser provado, mas é vil e assassino depois de provado? Que poder sobre o discípulo de Cristo tem a imagem encantadora dos benefícios e prazeres terrenos, ou mesmo a imagem horripilante das calamidades terrenas, que os espíritos malignos desenham para levar o observador à depressão e ao desespero, quando imagens magníficas da eternidade são impressas em sua alma através do poder da Palavra de Deus, diante da qual todas as cenas terrenas são pálidas e insignificantes? Quando São João, o Teólogo, proclama que a vitória que vence o mundo é a nossa fé, ele saúda os verdadeiros filhos de Cristo que venceram o mundo em sua vitória sobre o anjo caído e seus asseclas: Eu vos escrevo, jovens, ele diz, porque vencestes o maligno (1 Jo 2:13). Aqui, “jovens” é o que ele chama de cristãos que são renovados pela graça divina. Quando um servo de Cristo mostra coragem e constância em sua luta contra os espíritos malignos como deveria, então a graça divina desce em sua alma e lhe concede vitória, e sua juventude será renovada como a da águia (Sl 102:5) — juventude que nunca envelhece, com a qual ele foi adornado pelo Criador quando foi criado, e que ele trocou pela velhice incurável em sua queda voluntária. Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas é do mundo. E o mundo passa, e a sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre (1 Jo 2:15–17).
Amados irmãos! Por que não deveríamos também ser vencedores sobre o mundo e sobre seu príncipe? Pessoas como nós os venceram, pessoas vestidas de carne e fraqueza humana. Não apenas homens valentes foram vitoriosos sobre eles, mas também anciãos frágeis, mulheres fracas e crianças pequenas; eles venceram e não nos deixaram desculpas para perder se nos entregarmos a eles. O mesmo mundo com todas as suas atrações estava diante deles, as mesmas serpentes invisíveis rastejavam ao redor deles, aplicando todos os esforços para provocar suas almas e fazê-los viver no pó. Os corações e pensamentos dos conquistadores foram elevados! Guardando seus corpos com jejum, eles os domaram e pararam o impulso por prazeres terrenos neles! Por meio do jejum, eles deram ao seu espírito a oportunidade de permanecer em sobriedade e vigilância incessantes, e a oportunidade de ouvir e tomar cuidado com as múltiplas armadilhas do diabo! Ao aliviar seus corpos — e até mesmo seus espíritos — com o jejum, eles deram ao espírito a oportunidade de se apegar ao Senhor com oração pura e constante, de receber auxílio divino, de animar sua fé pela audição (cf. Rm 10:17), de ouvir para tornar sua fé substância (cf. Hb 11:1) e força espiritual — e por essa força obter vitória decisiva sobre o mundo e os espíritos malignos. São João, o Teólogo, chama essa fé de confiança que temos em Deus, e ele nos ensina por sua própria experiência sagrada que ela é alcançada por meio da oração que é ouvida [por Deus].[5] Os justos como se vissem o Deus invisível por meio dessa fé, como disse o apóstolo Paulo.[6] Naturalmente, o mundo se esconde da vista diante da visão de Deus! O mundo transitório se torna como se não existisse, e o príncipe do mundo não tem apoio em sua guerra. Sede sóbrios, vigiai; porque o vosso adversário, o diabo, anda em derredor, como leão que ruge, buscando a quem possa tragar: Resisti-lhe firmes na fé (1 Pe 5:8–9), tomando o escudo da fé (Ef 6:16) — fé que é ativa, viva, cheia de graça. Somente o trabalhador ascético de Cristo é capaz de tal fé. Ele se preparou para a guerra com os espíritos malignos perdoando os pecados de seus vizinhos — isto é, por meio da misericórdia e da humildade — e entrou na luta portando a arma do jejum e da oração. Amém.
[1] São João Cassiano, Discoursos 8, 9, 10.
[2] São João Crisóstomo, “Homilia 8, sobre a Epístola de São Paulo aos Romanos.”
[3] São Simeão, o Novo Teólogo, A Filocalia, Parte 2. Vede a Homilia de Nicéforo, o monge.
[4] do livro Kanonik, (Livro de Cânones).
[5] vede 1 Jo. 5:13–15.
[6] vede Heb. 11:27.
Olá, gostaria de entrar em contato com o dono do blog sobre as organizações ortodoxas do Brasil, meu email é rafaqpp@gmail.com, favor ignorar esse nome KKKKK eu era criança
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