SIGNIFICADO DA GRANDE QUARESMA - PARTE III

                                 Extraído do Livro “The Lenten Triodion”, 
                           pelo arquimandrita Kallistos WARE e Madre Mary, 
    Faber and Faber, Londres, 1978 




3. As regras do jejum
Com este padrão aqui desenvolvido de quaresma, o que exatamente as regras de jejum exigem? Nem nos tempos antigos nem nos modernos não tem havido uma exata uniformidade, mas a maior parte das autoridades ortodoxas concorda com as seguintes regras:

1) Durante a semana entre o Domingo do Fariseu e do Publicano e o do Filho Pródigo, há uma dispensa geral de jejum. Carne e produtos de origem animal podem ser comidos mesmo às quartas e sextas-feiras.

2) Na semana seguinte, normalmente denominada “Semana do Carnaval” o jejum normal às quartas e sextas-feiras é mantido. Fora isso, não há nenhum jejum adicional.

3) Na semana anterior à Quaresma, a carne é proibida, mas ovos, queijo e outros laticínios podem ser comidos todos os dias, inclusive às quartas e sextas-feiras.

4) Nos dias de semana (de segunda à sexta-feira inclusive) durante as sete semanas da quaresma, há restrições tanto no número de refeições tomadas diariamente quanto no tipo de alimentos permitidos; mas quando um alimento é permitido, não há limitação fixa quanto à quantidade de comida a ser ingerida.

a) Nos dias de semana da primeira semana, o jejum é particularmente severo. De acordo com uma rígida observância, no curso dos cinco dias iniciais da Quaresma apenas duas refeições são tomadas, uma na quarta-feira e outra na sexta-feira, em ambos os casos após a Liturgia dos Dons Pré-Santificados. Nos outros três dias, aqueles que têm força são encorajados a manter um jejum total; para aqueles a quem isto se mostra impraticável podem comer na terça-feira e quinta-feira (mas, se possível, não na segunda-feira), à noite após as Vésperas, quando eles podem comer pão e água, ou talvez chá ou suco de frutas, mas não uma comida cozida. Deve-se acrescentar imediatamente que na prática, hoje, estas regras estão normalmente relaxadas. Nas refeições de quarta e sexta-feira a tirofagia está prescrita. Literalmente isto significa “dry eating”. Rigorosamente interpretando, isto significa que nós podemos comer apenas vegetais cozidos com água e sal, e também coisas como frutas, nozes, pão e mel. Na prática, polvo e crustáceos também são permitidos nos dias de tirofagia; de igual modo margarina vegetal, óleos de milho e outros óleos vegetais, à exceção do de oliva. Mas as seguintes categorias de alimentos estão definitivamente excluídas:

- carne;
- produtos de origem animal (queijo, leite, manteiga, ovos, toucinho, gorduras);
- peixes (isto é, peixes com espinhas)
- óleo (isto é, óleo de oliva) e vinho (isto é, bebidas alcoólicas em geral)

b) Nos dias de semana (de segunda a sexta-feira, inclusive) na segunda, terceira, quarta, quinta e sexta semanas uma refeição por dia é permitida, a ser tomada à tarde em seguida às Vésperas, nestas refeições a tirofagia é observada.1

c) Semana Santa. Nos primeiros três dias há uma refeição por dia com tirofagia; mas alguns tentam um jejum completo nestes dias, ou ainda comem apenas alimentos não cozidos, como nos dias de abertura para a primeira semana.

Na Quinta-feira Santa uma refeição é permitida com vinho e óleo (isto é, óleo de oliva, azeite).

Na Sexta-feira Santa aqueles que tiverem força seguem a prática da Igreja Primitiva e mantém um jejum absoluto. Aqueles que são incapazes disso podem comer pão, com um pouco de água, chá ou suco de fruta, mas não antes do pôr-do-sol ou de qualquer maneira não antes do final da veneração do Epitáfio nas Vésperas.

No Sábado Santo não há a princípio nenhuma refeição, a não ser de acordo com uma antiga prática após a Liturgia de São Basílio ao fiel que permanecer na igreja para a leitura dos Atos dos Apóstolos, para sustentar suas forças é dado um pouco de pão e frutas secas, com um copo de vinho. Se, como normalmente acontece agora, eles retornam para casa para uma refeição, eles podem usar vinho, mas não óleo, para apenas este único sábado entre os sábados do ano, azeite não é permitido.

A regra da tirofagia é relaxada nos seguintes dias:
(1) Aos sábados e domingos na Quaresma, com a exceção do Sábado Santo, duas refeições podem ser tomadas da maneira usual, em torno do meio-dia e à noite, com vinho e óleo de oliva, isto é azeite; mas carne, produtos de origem animal e peixe não são permitidos.

(2) Na Festa da Anunciação e Domingo de Ramos, o peixe é permitido assim como vinho e azeite, mas carne e produtos de origem animal não são permitidos. Se a Festa da Anunciação cai num dos quatro primeiros dias da Semana Santa, vinho e óleo são permitidos, mas peixe não. Se a Festa cai na Sexta-feira Santa ou Sábado Santo, o vinho é permitido, mas não o peixe e o óleo.

(3) Vinho e óleo são permitidos nos seguintes dias se eles caem num dia de semana da segunda, terceira, quarta, quinta ou sexta semana da Quaresma:
- Primeiro e segundo encontro da cabeça de São João Batista (9/3).
- 40 Santos mártires de Sebástia (22/3)
- Ante-Festa da Anunciação (6/3)
- Sinaxis do Arcanjo Gabriel (8/4)
- Festa do patrono da igreja ou mosteiro.

(4) Vinho e óleo são também permitidos na quarta e sexta-feira da quinta semana, por causa da Vigília do Grande Cânon de Santo André de Creta. O vinho é permitido e de acordo com algumas autoridades, óleo também – na sexta-feira na mesma semana, por causa da Vigília do Hino Acatiste à Mãe de Deus.

Estas regras de jejum têm sido sempre mantidas, podendo ser relaxadas no caso de idosos e de pessoas doentes. Na prática atual, mesmo para os de boa saúde, a completa rigidez do jejum está normalmente atenuada. Apenas poucos ortodoxos, hoje, tentam manter um jejum total na segunda-feira, terça-feira e quinta-feira na primeira semana ou nos três primeiros dias da Semana Santa. Nos dias de semana – exceto, talvez, durante a primeira semana e durante a Semana Santa – é comum atualmente comer duas refeições cozidas diariamente ao invés de uma. Da segunda até a sexta semana, muitos ortodoxos usam vinho, e talvez óleo também, às terças e quintas-feiras, e menos usualmente nas segundas-feiras também. Permissão é dada para que se coma peixe nestas semanas. Fatores pessoais devem ser levados em consideração como, por exemplo, a situação de um ortodoxo vivendo na mesma casa de um não-ortodoxo, ou obrigado a fazer suas refeições na cantina de uma fábrica ou de uma escola. Em casos de dúvida cada um deve procurar o conselho de seu pai espiritual. Em todos os casos deve-se ter na mente que “você não está sob a lei, mas sob a graça” (Rm 6, 14), e que “a letra mata, mas a palavra vivifica” (2 Co 3, 6). As regras do jejum, devem ser consideradas seriamente, e não devem ser interpretadas com um severo e pedante legalismo; “...porquanto o Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14, 17).


1 As fontes primitivas não concordam entre si em relação à aplicação da regra da tirofagia. O Concílio de Laodicéia, cânon 50, e Teodoro, o Estudita, Doctrina Chronica, 9 (P.G. XCIX, 1700B) prescrevem a tirofagia em todos os dias da semana na Quaresma; mas João Damasceno, On the Holy Fasts, 5 (P.G. xcv, 69D) e Teodoro Balsamon (Rallis-Potlis, Sytagma, vol. iii, p. 217) parecem considerar uma observância menos rígida.

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