sábado, 10 de março de 2018

O Reino que há de vir é o presente instante


Entrevista ao “La Croix”
com Julija Vidović, teóloga sérvia e
professora no Instituto ortodoxo de saint-Serge em Paris


Venha o Teu Reino… O quanto tal expressão engloba segundo teu ponto de vista?
J.V: Ela é uma demanda, a segunda do Pai Nosso, que existe desde o Antigo Testamento. Dirige-se a um Rei, Que esperamos irá reagrupar todo Seu povo, Israel. Em seguida, os cristãos perpetuaram sob a forma arameana de “Maranatha”, que significa: “Vem, Senhor”. Tal expressão é de uma densidade inaudita! Engloba por vezes mesmo o que foi, o que é e o que vem (a ser). Passado, presente e futuro se unem na mesma demanda.

Como é possível essencializar, primeiramente em grego, e em seguida em diversas outras línguas, tal realidade?
J.V: No Evangelho de Mateus diz “que o Teu Reino venha”, enquanto junto a Lucas, é a vinda do Espírito Santo que é invocada. Esta tradição foi retomada mais tarde pelos Padres da Igreja que estabeleceram, eles também, um laço direto entre o reino e o Espírito. Para estes últimos, notoriamente junto a Máximo o Confessor, o Antigo Testamento é como que uma sombra prefigurando/prefigurante (d)a vinda do Reino. Quanto a realidade presente encarnada pela Igreja, ela é o ícone. Através dela, o Reino ainda não se realiza em plenitude mas já está lá e é chamado a se manifestar plenamente no fim dos tempos – é o que chamamos “a escatologia”. Desta forma, todas as temporalidades se sobrepõem.

Mas este Reino, o quê ele significa mesmo para nós? Virá ele sobre a “terra” ou no “céu”?
J.V: Trata-se de uma única e mesma realidade, mesmo se é difícil perceber num mundo minado pelas catástrofes, as guerras… Invocar a vinda do Reino de Deus, é reconhecer que este mundo terrestre onde o mal parece triunfar não está abandonado. Ele é também – e antes de tudo – um dom. “Venha o Teu Reino” é uma demanda profundamente interior. Aspiramos a uma realidade transcendente – ou “celeste” se preferir – que ainda não se encontra sob nossos olhos, mas que já percebemos na medida em nos preparamos a ela. “Entra em mim”, diz um hino de São Simeão, monge e teólogo do século XI, dirigindo-se ao Espírito Santo. Pois uma vez preenchidos pelo Espírito Santo, percebemos o mundo na óptica da Ressurreição. Eis porque a liturgia bizantina começa sempre pela benção do Reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo. “É tempo de servir o Senhor”, diz o Diácono.

É então numa transformação interior, pela vinda de um Deus Todo-Poderoso…
J.V: O soberano a Quem nos dirigimos não é um juíz que nos terroriza, Ele é o Pai que vigia sobre nós como sobre Seus filhos. “Venha o Teu Reino”, isso nos situa numa perspectiva de união. homem/mulher, terrestre/celeste, livre/escravo… Se todas estas divisões existem, elas nos esperam no coração daquele que busca a união pessoal com Deus. Esta paz, esta integridade do coração – a tradição hesicasta – é o cume da espiritualidade ortodoxa. Ela determina de forma fundamental nosso comportamento num sociedade pluralista: não é o mundo que determina nosso estado interior, antes somos nós que testemunhamos no meio do mundo da paz que confere nossa relação com Deus. Cada homem torna-se assim um ícone de Deus. Instaura-se assim o reino do serviço, não aquele da toda-potência.Não somos chamados a proclamar dogmas, regras morais, antes testemunhar a paz que está em nós.

Para os ortodoxos, a “Grande Quaresma”(1) é uma maneira de acelerar a vinda deste Reino?
J.V: Todo nosso modo de vida muda durante este período, e as orações dos fiéis se intensificam. Durante a Primeira Semana da Grande Quaresma lemos o “Grande Cânone”, uma evocação de toda antropologia cristã desde Adão. O primeiro homem quis instaurar seu reino de dominação, mas fracassou. Nada de surpreendente nisso: somos criaturas e buscamos nos proteger ao nos prendermos a nossas paixões, aos nossos desejos aos bens materiais. A Quaresma, é o desprendimento para se regressar ao essencial: o Reino e à comunhão. Pelo perdão e a intensificação do diálogo com Deus e os outros, nos tornamo-nos sensíveis ao fato de que Alguém nos deu esta vida. E isto, ninguém pode nos obrigar a crer! “Deus pode nos obrigar tudo menos a amá-Lo”, dizem os Padres da Igreja.

Mas no curso da sua história, as Igrejas geralmente procuraram impor seu poder…
J.V: As Igrejas são também instituições. E não esqueçamos que na maioria dos países majoritariamente ortodoxos o Cristianismo ressurge após muitas decênias de ditadura comunista. O poder que estas sociedades hoje aguardam, é a religião utilizada para fins ideológicos. As Igrejas Ortodoxas não se entendem sempre entre elas sobre certos pontos e mudar o coração – aquilo que os Padres da Igreja chamam de “metanóia” – vai ainda levar um tempo. Existe todo um trabalho de diálogo a ser realizado.

As sociedades muito secularizadas como a nossa passam quase sempre de lado do Reino anunciado no Evangelho?
J.V: Eu não acredito. Existe junto a cada ser humano uma busca profunda, mesmo se esta não corresponda a uma forma confessional precisa. Existe este desejo de que esta vida que passa é uma vida que fica, que permanence. Pelo menos é o que vemos nos hospitais onde as pessoas prestes a morrer manifestam ao quererem permanecer em vida. É necessário fazer frutificar esta demanda de eternidade, mesmo se ela conduza os individuos a direções aparentemente diferentes. 

Isto vai ao encontro aos escritos de Máximo o Confessor (580-662), teólogo bizantino sobre o qual trabalhastes com ardor…
J.V: Ele considera, com efeito, que cada homem e cada mulher participa do Reino, fazendo dele testemunho, à sua maneira. Eis a abolição completa das hierarquias compreendidas enquanto poderes! Pois o quanto mais nos aproximamos de Cristo, mais participamos ao Seu Reino, e mais nos aproximamos uns dos outros. É lá, nesta unidade, que Seu Reino se instaura. Cristo torna-Se “tudo em nós”(I Cor. 15: 28). Eis a plenitude do Reino.

Em que momento mais ressentes a realidade deste “reino que vem”?
J.V: Quando vivo o presente instante. Um poeta sérvio, Mika Antić (1932-1986), dizia que se cada instante é real, os homens, não são, por sua vez, reais a todo instante. Eis porque passamos muito geralmente ao lado da realidade. Ao lado deste presente que é um dom – presente quer dizer “presente” em inglês (NdTP: e em português também). Durante a Grande Quaresma, laboramos  nossa atenção, nos vigiamos a não nos dispersarmos tanto em nossa vida cotidiana. O ideal seria de estar constantemente presente neste mundo que era que é e que virá.

por Samuel Lieven


(1) Na Igreja Ortodoxa, existem 4 períodos prolongados de abstinência: a Grande Quaresma anterior à Páscoa, o Jejum de Natal durante o Advento; o Jejum antes da Festa dos Santos Apóstolos Pedro & Paulo e o Jejum da Dormição (entre 1/15 agosto e 14/28 agosto).



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