sexta-feira, 17 de julho de 2015

"Catequeses sobre a Oração" - extratos





Esta Catequese teve lugar em 1974, sendo dirigida à jovem comunidade dos monges recém-instalados no Monastério de Simonos-Petra (Monte Athos). O Arquimandrita Aimilianos lhes fala da oração do coração.

Primeiramente, quando nos referimos à oração, é necessário dizer que a oração não poder ser independente. Eu não posso afirmar que eu oro, se, no entanto minha oração não está em união com o seu complemento.

Existem coisas que, de fato, estão sempre juntas, e não podemos separar uma da outra. Como, por exemplo: Por que o Apóstolo Paulo ao falar da fé, não menciona as obras? (cf. Rm.4,5) Porque ao dizer “fé”, ele compreende uma fé que existe e que se manifesta por meio das obras. São Tiago ao falar das obras, (cf. Tg.2,14-26) diz que a fé não tem sentido algum sem elas, ele fala constantemente das obras, mas por quê? Porque as obras demonstram a fé. Estas duas realidades formam então um todo indissolúvel.

Desta mesma forma a oração está intimamente associada à uma outra realidade. Ela está ligada à Liturgia e mais profundamente à Santa Comunhão. Sem Liturgia e sem o Sacramento da Comunhão a existência da oração não é quase possível. Toda a oração seria então uma farsa. De igual modo, estejamos certos de que o culto que rendemos a Deus, tal como nossa comunhão, são vãos  diante de qualquer vida litúrgica marcada pela ausência de oração espiritual, (falo de uma oração interior forte, consolidada). Eles não passam de lama, lançada aos olhos de Deus, para Lhe fazer crer que O amamos; quando na realidade não temos relação alguma com Ele, e eis que um dia Ele nos dirá: “Eu verdade vos digo que não vos conheço.” (Mt.25,12; cf. Lc.13,25). A vida litúrgica e a oração formam um todo. Elas constituem os dois ramos da vida espiritual; sendo uma a vida sacramental, condição primária à vida mística, e a outra, sendo a oração, que hoje analisamos, e que poderíamos dizer que é a raíz, o tronco, o ponto central da vida mística, que jorra da vida sacramental. A Santa Comunhão vem então em primeiro lugar no seio do culto. E por que razão? Por que é ela o preâmbulo indispensável?

Quando falamos da oração interior, não utilizamos a palavra proseuche, mas simplesmente o vocábulo euche, pois a posição “pros”, “em direção à” nos indica seguidamente que a oração é um caminho direcionado à alguém, com o  desígnio de nos unirmos à esta Pessoa. A oração interior (euche), é uma pausa – se podemos assim exprimir – um ato de júbilo que tem lugar em certo ponto onde Deus Se encontra. Como vedes, é-nos necessário fazer uma distinção.

Dizemos então que a oração (proseuche) supõe que nos dirijamos à uma Pessoa. Por consequência, para que haja oração, é preciso que esta Pessoa exista. E para poder dizer que oro, é preciso que a Sua presença e a Sua existência se tornem familiares em mim. Cristo, Aquele que está “no interior” de todas as coisas, Aquele que está presente presente em tudo, torna-Se presente em minha vida, por meio de minha participação litúrgica e, de forma privilegiada, de minha participação aos Santos Mistérios.

Por minha participação à vida litúrgica de nossa Igreja, eu me associo a Cristo, tornando-me membro de Seu Corpo. E à medida em que sou membro de Seu corpo - pois que torno-me efectivamente um membro vivo de Seu Corpo – é-me necessário participar às propriedades de Cristo, a fim de que se realizem em mim a perichorese e a permuta das qualidades, da mesma maneira, que em Cristo, Suas duas naturezas, divina e humana, complementam-se reciprocamente. Uma tal interpretação realiza-se pela Santa comunhão, que me faz participante às propriedades d’Aquele que é a minha Cabeça, Cristo; com Quem eu me tornei um.

Em consequência, a vida litúrgica e a Santa Comunhão estão indissoluvelmente ligadas. O que operam elas em mim? Elas tornam Deus, o Deus Vivo, presente em mim. O que resta a fazer agora? Vou me dirigir Àquele que vem em minha direção. Assim, por meio da Liturgia, Deus aproxima-Se de mim (perichorese), e por meio da oração, eu me aproximo d’Ele (proseuche), até que esta união seja total.

Esta orientação de todo o meu ser a Deus realiza-se pela via mística, continuamente e essencialmente pela oração. Aquilo que se produz em um dado momento ao interior da Igreja, em Vésperas, ou durante a celebração eucarística pela minha participação aos Santos Mistérios, prosseguir-se-á na oração. Eu não posso dizer que vou à Igreja se em contrapartida não faço antes minha oração. É então supérfluo ir à Igreja, desnecessário assistir à Liturgia e inútil comungar, quando não estou em estado de oração (contínua). E também inútil orar quando não participo a tudo o que veio a ser dito.

Todavia, a condição primordial e evidente é de assegurar à oração um lugar próprio, um lugar reservado, um espaço místico onde ela é cultivada.

Quando plantamos uma flor, preparamos a terra, tornamo-la fértil, adicionamos os adubos necessários, a fim de que desta raiz nasça uma flor. Se não a adubarmos, nem apropriarmos a terra, deixando-a arenosa, por exemplo, é em vão que plantamos esta raiz. O mesmo acontece à oração que permanecerá estéril, não ultrapassando o cimo de nossa cabeça – nem ainda podendo chegar às alturas das nuvens, atingindo os Céus – se ela não for plantada em sua terra mística, enriquecida pelo complemento espiritual; a vigília, a meditação e o jejum.

pelo Arquimandrita Aimilianos
Igumeno do  Monastério de Simonos Petra 
Santa Montanha (Athos)

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