terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre a dor e as doenças



Todo o mundo, seja ou não cristão, deve esperar que certa quantidade de doença ou desconforto entre em sua vida. A dor física é universal: ninguém dela escapa. Assim, quanto se, ou quão intensamente se sofra com as doenças, não importa tanto quanto se compreenda essas doenças. O entendimento é tudo.

Se alguém pensa que a vida deveria ser umas férias longa e luxuriosa, então qualquer quantidade de sofrimento que lhe sobrevenha é insuportável. Mas se um homem enxerga a vida como um tempo de pesares, correção e purificação, então o sofrimento e a dor tornam-se não só suportáveis como até mesmo úteis.

Santo Ambrósio de Milão diz da atitude do Cristão diante da doença: "Se a ocasião demandar, um homem sábio aceitará prontamente a enfermidade do corpo e até mesmo entregará completamente seu corpo à morte pela busca de Cristo... Esse mesmo homem não será afetado em espírito ou, quebrantado por dores do corpo se sua saúde lhe faltar. Ele será consolado por suas lutas pela perfeição das virtudes" (Exegetical Works). Ouvindo isso, o homem mundano exclamará qualquer coisa como: "Que idéia! Como pode um homem 'aceitar prontamente' doenças e enfermidades?".

Para um descrente isso é de fato uma coisa incompreensível. Ele não consegue conciliar o fato do sofrimento humano com sua própria idéia de Deus. Para ele, o simples pensamento de que Deus permitiria a dor é repugnante; normalmente ele enxerga todo o tipo de sofrimento como mau em um sentido absoluto.

Sem a ajuda da Revelação Divina, o homem não pode entender a origem e causa da dor, nem seu propósito. Muitas pessoas, não tendo tido auxílio para esse entendimento, são assombradas pelo medo da dor, aterrorizadas pelo pensamento de doenças prolongadas, e apressam-se a procurar socorro médico porque elas acreditam que as doenças são só o resultado do acaso.

Se fosse verdade que as enfermidades viessem meramente através de "má sorte" (o que até mesmo o senso comum desmente, pois muita doença é o resultado de uma vida imoderada), então de fato seria permitido e até mesmo desejável que se usasse todos os meios para evitar a dor da doença e até mesmo a própria doença. Por isso, quando uma doença torna-se irreversível e terminal, a sabedoria mundana ensina que é aceitável terminar a vida do paciente, o que é chamado de eutanásia, ou "morte misericordiosa", visto que, de acordo com esse ponto de vista, o sofrimento no leito de morte é inútil e cruel e por isso "mau".

Mas mesmo na vida cotidiana nós sabemos que o sofrimento realmente não é "completamente mau". Por exemplo, nós nos submetemos ao bisturi do cirurgião para termos uma parte doente do nosso corpo cortada fora; a dor da operação é grande, mas nós sabemos que é necessária de modo a preservar a saúde ou mesmo a vida. Assim, mesmo num nível estritamente materialista, a dor pode servir a um bem maior.

Outra razão porque o sofrimento humano é um mistério para um descrente é que sua própria "idéia" de Deus é falsa. Ele fica chocado quando os Santos Padres falam de Deus da seguinte maneira: "Mesmo que Deus traga sobre nós fome, ou guerra, ou qualquer calamidade, seja qual for, Ele faz isso por Seu cuidado e bondade inexcedíveis" (São João Crisóstomo, Homily 7, On the Statues).

O teóforo Macário de Optina, na Rússia do século XIX, escreveu assim para um amigo: "Sendo de saúde frágil como tu és, não posso deixar de sentir muita simpatia pelo teu empenho. Mas a bondosa Providência não é só mais sábia do que nós; ela é também sábia de maneira diferente. É esse pensamento que deve nos sustentar em todas nossas tentativas, pois é mais consolador do que qualquer outro".

Sábia de maneira diferente... Aqui podemos começar a ver que o entendimento Patrístico dos desígnios de Deus é contrário ao da visão mundana. De fato, é único: não é especulativo, escolar ou "acadêmico". Como o bispo Teófano, o Recluso escreveu: "A fé cristã não é um sistema doutrinal mas uma maneira de restauração para o homem decaído". Assim, o critério de fé - conhecimento verdadeiro de Deus - não é intelectual. A dimensão da verdade, como escreveu o professor Andreyev, "é a própria vida... Cristo falou disso claramente, plenamente e definitivamente: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo.14,6). Isto é, Eu sou o caminho de perceber a Verdade; Eu próprio sou a Verdade encarnada (tudo que Eu digo é verdade)...e Eu sou a Vida (sem Mim não pode existir nada)" (Orthodox Christian Apologetics). Isso é muito distante da sabedoria desse mundo.

Podemos tanto crer quanto descrer nas palavras de Cristo a respeito de Si pró­prio. Se nós cremos, e agimos de acordo com nossa crença, então podemos começar a ascender na escada do conhecimento vivido, tal como nenhum livro texto ou filósofo pode nos dar: Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou louca a sabedoria deste mundo? (1Co.1,20)

Uma das dificuldades em compilar um manual de ensinamentos Patrísticos sobre as doenças é que as enfermidades não podem ser estritamente separadas da questão geral das dores (dores psicológicas e sofrimentos resultantes de guerras, fome etc). Algo do que os Santos Padres tem a dizer sobre doenças também estabelece os fundamentos de seus ensinamentos sobre adversidades, que será o assunto de outro livro dessa série.

Outra dificuldade é que os Padres Ortodoxos às vezes usam palavras como "pecado", "punição" e "recompensa" sem se limitarem ao significado que nossa sociedade moderna dá a elas. Por exemplo, "pecado" é uma transgressão da Lei Divina. Mas no pensamento Patrístico é também mais que isso: é um ato de "traição", uma infidelidade ao amor de Deus para com o homem e uma "violação arbitrária da sagrada união (do homem) com Deus" (Andreyev, Ibid). O pecado não é algo que devemos ver dentro do quadro de "crime e punição"; a infidelidade humana é uma condição universal, não limitada simplesmente a esta ou aquela transgressão. Está sempre conosco, porque todos pecaram e destituidos estão da glória de Deus (Rom.3, 23).

As relações de Deus com o homem não são limitadas às nossas idéias legalísticas acerca de recompensa e punição. Salvação, que é o objetivo último da vida cristã, não é uma "recompensa", mas um presente dado de graça por Deus. Não podemos "ganhar" ou "merecer" a salvação por nada que façamos, não importa quão piedosos ou auto anulados nos consideremos.

Na vida do dia a dia nós naturalmente pensamos que bons atos deveriam ser recompensados e crimes punidos. Mas nosso Deus não "pune" com base nos padrões humanos. Ele nos corrige e castiga, tal como um pai amoroso corrige seu filho que erra para mostrar o caminho. Mas isso não é a mesma coisa que ser-se "sentenciado" a um "termo" de dor e sofrimento por algum delito. Nosso Deus não é vingativo: Ele é o tempo todo perfeitamente amoroso, e Sua justiça não tem nada a ver com as regras legais humanas. Ele sabe que nós não podemos chegar a Ele sem pureza de coração, e Ele também sabe que não podemos adquirir essa pureza a menos que libertemo-nos de todas as coisas: libertos dos apegos ao dinheiro e propriedade, libertos das paixões e dos pecados, e até mesmo desapegados da saúde do corpo se isso se colocar entre nós e a verdadeira liberdade diante de Deus. Ele nos instrui, tanto através da Revelação quanto da correção, mostrando-nos como devemos adquirir essa liberdade, pois conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo.8,32).

Como São João Cassiano ensina: "Deus encaminha-te por um degrau mais alto para aquele amor que é livre de medo. Através disso tu começas sem esforço e naturalmente a observar todas aquelas coisas que originalmente tu observavas com medo de Deus e de punições, mas que agora tu o fazes sem mais medo de punições, mas com o amor da própria bondade, e jubiloso em virtude" (Institutes).

Tendo em mente esses profundos significados espirituais de palavras com "pecado", "recompensa" e "punição", podemos continuar a estudar os discursos divinamente sábios dos Santos Padres sobre doenças, dando graças a Deus que "nossa fé foi tornada segura por sábios e esclarecidos santos" (São Cosme de Aitolas), porque "na verdade, conhecer-se a si próprio é a coisa mais difícil de todas", como São Basílio, o Grande escreveu. Os Santos Padres indicam o caminho. Suas vidas e escritos agem, como se fossem um espelho no qual nós podemos tomar as nossas medidas, pesados e gordos que estamos por nossas paixões e enfermidades. A doença é um dos meios pelos quais podemos aprender como realmente estamos.

fonte: The Teachings of the Holy Fathers on Ilness
NICODEMOS ORTHODOX PUBLICATION SOCIETY
 Redding, California, 1986

Nenhum comentário:

Postar um comentário