terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Vasos de barro - Reflexão sobre o Sacerdócio

Sacerdotes do Deus Altíssimo

O título desta crônica é o mesmo que Fulton J. Sheen, Bispo americano e forte presença na televisão em seu país nos anos 50 e 60, deu à sua autobiografia (Treasure in clay). Inspira-se na frase com o qual o Apóstolo Paulo reconhece, escrevendo aos cristãos de Corinto, que ele, como os doze Apóstolos de Cristo e os que se preparam suceder-lhes são portadores de um tesouro precioso, que, paradoxalmente, eles guardam em um vaso de barro (II Cor 4,7 ). "Escolhi este título", explica o Bispo, "para indicar o contraste entre a nobreza da vocação para o sacerdócio e a fragilidade da natureza humana que a abriga. Temos o tremendo poder de agir in persona Christi, isto é, de perdoar os maiores pecados, transplantar a cruz do Calvário para o altar, dar um nascimento divino a milhares de crianças na fonte batismal e conduzir almas do leito de morte ao Reino dos Céus. Mas, por outro lado, nos parecemos com todas as outras pessoas. Temos a mesma fraqueza dos outros homens... O padre continua sendo homem".

Estas considerações adquirem um sentido particular quando lidas e meditadas no Dia em que comemoramos a ocasião da Última Ceia, quer dizer a Quinta-Feira Santa. Pois, naquela noite, há quase 2 mil anos, Jesus uniu de tal modo a declaração "Fazei isto em memória de Mim", que, num único gesto, Ele instituiu, no quadro da nova e eterna aliança, duas realidades: um Sacramento, o da Eucaristia, por Si e pelos Seus sucessores, a quem eles transmitiriam o mesmo poder. Por isto, a Quinta-Feira Santa é, "o aniversário da ordenação" de todos os Sacerdotes (Bispos e Presbíteros ) do mundo inteiro - aniversário tão significativo quanto o da data em que cada padre foi efetivamente ordenado.

O tesouro e o barro. Neste binômio se esconde e estala de modo dramático a indescritível tensão entre o que no padre é sua vocação mais profunda, ligada, na origem e nas finalidades, à misteriosa esfera do Divino, e o que nele é humano, demais humano, tomado este adjetivo com tudo o que contém de sublime e de degradado, de riqueza e de miséria, de grandeza e de pequenez.

O tesouro é, no sacerdote, o carisma recebido pela imposição das mãos em vista de um serviço e de uma responsabilidade inconfundíveis na Igreja. É a graça de receber nos próprios lábios, como aconteceu a Isaías, a palavra incandescente de Deus, e ser seu anunciado. É a missão e a função, una e polimorfa, de ser educador na fé. De congregar os que estão perto e os que estão longe e de mantê-los na comunhão da fé e da caridade. De mostrar-se zeloso dispensador dos Mistérios de Deus, encarnados nos Sacramentos, e de santificar seu povo. De ir à frente do seu rebanho, prevenindo os perigos, conduzindo a melhores pastagens, defendendo contra as insídias a as ameaças dos lobos. De se tornar pai espiritual de uma multidão de filhos, gerados na fecundidade do Evangelho. O tesouro do padre é, pois, sua especial consagração ao Reino, mediante o seguimento e a imitação do supremo e eterno sacerdote, o Deus e homem Jesus Cristo.

O barro é, no sacerdote em geral e em cada sacerdote em particular, o fermento insuprimível da condição humana e da humana falibilidade. Pode ser o aguilhão da carne ou a soberba do espírito. A dureza do coração ou a íntima adoração do dinheiro. O comodismo que limita a capacidade de proclamar o Evangelho e de edificar com paciência e perseverança o Reino ou a tendência a só buscar a companhia dos ricos e dos poderosos. O barro é, mais fundo do que os casos circunstâncias, a consciência dolorida de estar anunciando a palavra de Deus sem tê-la ouvido, bastante e, portanto, com o risco de a estar substituindo com a própria palavra. De estar dividindo a comunidade em vez de uni-la. De distribuir os sacramentos como produtos em supermercados sem crer que está lidando com coisas santas. De estar pastoreando sem a preocupação de discernir os melhores caminhos para o rebanho. De estar tratando os fiéis mais como um manager ou um chefete do que como um pai. Barro é a pena de constatar que não se está experimentando o inesgotável fervor do espírito nem a tonificante alegria de ser padre - mas, se está arrastando tibiamente um sacerdócio-aguilhão ou um sacerdócio-tarefa.

O tesouro no barro. O que é certo é que Deus jamais quis convocar sacerdotes entre as rutilantes fileiras dos serafins. Escolhe-os na massa quase sempre pouco brilhante de pobres homens mortais.

Nesta Quinta-Feira Santa não falte aos sacerdotes a oração dos fiéis. Para que a tensão entre o tesouro e o barro (o barro de que foram feitos) tenha o condão de atraí-los para mais alto. Que, mesmo à custa de lutas e de sacrifícios ingentes, o barro não esconda o tesouro nem deixe que ele seja arrebatado pelo inimigo. Que - para dizer com Fulton Sheen - "Para guardar puro e inviolável o tesouro, o barro seja estirado, modelado e cozido na cruz de fogo". Na Cruz de Jesus Cristo.

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