O (verdadeiro) Carnaval Cristão

 
o Temível Tribunal
Nossa Santa Mãe, a Igreja, em sua plena sapiência reúne em seu calendário ciclos que ritmam a vida espiritual de seus filhos, nós cristãos fiéis a estes ensinamentos.

O período em que nos encontramos traz o nome de Triódio, onde passamos docemente por algumas semanas preparatórias à Grande Quaresma. As Perícopas dos Evangelhos são a força motriz deste contexto, marcando com exemplos o convite às virtudes necessárias à alma que se vê enamorada pela ascese espiritual de sua essência: começamos pela Parábola de Zaqueu, depois do Publicano & Fariseu, o Filho Pródigo, o Juízo Final e por fim o Domingo do Perdão. Eis uma escada conduzindo e educando nossos sentidos e senitmentos.

Encontramo-nos na Semana da Tirofagia, quer dizer, na semana anterior ao Domingo do Perdão. Semana em que já não mais comemos carne, mas ainda podemos comer produtos lácteos todos os dias. Uma coisa, no entanto, interessante, é que a Igreja prescreve indicações nos serviços litúrgicos como para o tempo da Grande Quaresma para a 4ª e 6ª feiras, como por exemplo, grandes metanóias, Oração de Santo Efrém, leituras bíblicas na Sexta Hora Canônica, Grandes Completas e todo sistema comum ao período da Grande Quaresma.

O Domingo de ontem, chamado também de Domingo de Carnaval ou do Juízo Final traz um caráter marcante em relação à cultura ocidental, latina e sobretudo a brasileira. Talvez poucos saibam a origem do CARNAVAL. Era uma festa religiosa – a despedida da carne. Em latim, temos Carne Vadis, em grego Apokréo, em eslavônico Mesopustnitsa. Quer dizer, a carne vai se embora... O rito ocidental adota ainda 4ª feira de Cinzas, dia de penitência, onde se colocam cinzas sobre os fiéis. Se lermos o parágrafo anterior com mais atenção podemos (re) descobrir que a essência deste costume também está presente no rito bizantino.

Bom, o que vem então a ser o verdadeiro carnaval. É deixar a carne com todas as suas forças, energias, impulsos... e começamos pelo mais concreto e mais rudimentar: os hábitos alimentares e também as relações conjugais. É uma pena ver como mais uma vez o espírito do Príncipe deste mundo ataca com toda sua força, transformando de forma atroz todo este sentido preparatório que a Igreja oferece aos seus filhos num cenário de adoração da carne.

No Sábado precedente ao Domingo de Carnaval, os Santos Padres ordenaram que a Igreja Ortodoxa comemorasse as almas de todos falecidos, com base numa tradição herdada dos ensinamentos dos Santos Apóstolos justificada por três sapientes razões:

Em primeiro lugar, para que aqueles que, devido alguma circunstância particular, não puderam receber as exéquias habituais individualmente, possam ser incluídos na presente comemoração geral; tudo o que é feito em seu nome lhes confere grande vantagem espiritual.

A segunda razão está vinculada ao Domingo de Carnaval ou do Juízo Final (dia posterior), atribuído à observância da Segunda Vinda de Cristo. Esta comemoração traz o propósito também de incitar o temor pela morte e o Juízo Final, deixando claro, no entanto, a Compaixão Paterna, única a fazer franquear as almas dos pecadores no lugar de refrigério, paz e amor eternos – o Paraíso. A parábola do Evangelho é fortemente marcada por este caráter.

A terceira razão vê-se vinculada com a comemoração do domingo seguinte onde celebraremos a Expulsão de Adão do Paraíso. O foco aqui se concentra na ideia do repouso para que possam todos reunir suas forças ao período que se segue – a Grande Quaresma – da caminhada pelo deserto desta vida até o ápice de nossa fé, a Santa e Luminosa Páscoa. Chamamento à preparação ao combate ascético espiritual na arena de nossos corações, expulsando o velho Adão com todas as suas quedas e mortes cotidianas.

Logo, o Domingo de Carnaval traz o tema do Juízo do Amor, onde o lemos belo Evangelho de Mateus (25, 31-46), cuja frase: “Em verdade vos afirmo que sempre que o fizeste (o bem) a um destes meus pequeninos irmão, a Mim o fizestes”, enfoca o tema em plenitude.

O tema do Juízo Final esclarece toda alegação que se tem dos critérios deste juízo. Os critérios para esta prova é o amor. Toda a humanidade será julgada, e o juiz não nos condenará por má conduta, mas por deixarmos de exercer o amor. Esta concepção é extremamente importante para nos preparar adequadamente para esse dia, sem ilusões nem hipocrisia.

Nosso próximo será o procurador neste julgamento, e nossa sinceridade em amá-lo será posta em causa. O pecado a nós atribuído será a negligência. Não nos serão atribuídos atos pecaminosos, mas antes atos que nós próprios cometemos: quando não agimos na qualidade de irmão para com nossos próximos. O próximo sempre existiu, nosso pecado é o fato de não o termos visto, prestado atenção as suas necessidades, nem demonstrado compaixão por sua condição.

O pecado de restringir fazer o bem se remedia pelo exercício do bem. Deus pede que façamos o bem. Nossa esperança reside no fato de sabermos que Deus Se mostra misericordioso se nos arrependermos. Quanto mais praticarmos o bem, mais O amamos e nos afastamos do mal. Devemos nos educar a amar aquilo que Deus ama, e negar o que Deus nega; não devemos nos comprazer com nossos maus desejos, nem ainda nos acostumarmos a pecar, antes progredirmos em boas obras e nos fortalecermos no bem.

Eis à porta a dádiva que a Igreja nos oferece: o tempo de Jejum, tempo de recolhimento, de meditação no homem interior, tempo de purificação, tempo de conversão, de oração, tempo, enfim, de boas obras, tempo do bem.

Vamos ajudar o bem, fazendo o bem em torno de nós... vivendo o exemplo simples do Evangelho, ensinando, por exemplo, nossos filhos o que realmente significa o carnaval, tal como nossa Santa Mãe, a Igreja nos ensina através de seu convite, levando uma vida verdadeiramente cristã e agradável a Deus. Amém!

por Aurora

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