Entra na alegria de Teu Pai, filho Meu!



Podemos todos nos considerarmos filhos pródigos, por estarmos desperdiçando o precioso tempo que nos foi dado mais com coisas que nos afastam de Deus do que com aquelas que nos aproximam d´Ele. É isto que o pecado faz. Ele nos conduz a um local afastado do Pai, e nos faz pensar que estamos livres para gastar o precioso tempo que temos e os preciosos dons que nos foram dado para, por fim, não fazermos nada.

Muitos vão dizer, “Sim, Pai, não existe nada de mal em curtir a vida”. Eu concordo, não há nada de mal nisso, no entanto, deve existir um equilíbrio entre diversão e responsabilidade, entre satisfazer o corpo e preencher a alma, entre o que recebemos e o que damos em troca.

Alguém pode somente gastar, gastar, gastar, porque no fim das contas ele vai para o fundo do poço, e ao sofrer um duro contato com o fundo do poço finalmente vai entender qual era o verdadeiro objetivo da herança: não era desperdiçar com as meretrizes, nem nos restaurantes, nem ser gasta dormindo demais depois de uma noite de farra, mas sim ser usada sabiamente no cumprimento daquilo que podemos chamar de salvação.

Por vezes, todavia, isto pode ser muito tarde – falamos disto na parábola do homem rico que tinha uma boa colheita – mas por outras vezes este difícil despertar pode transformar a vida de alguém. O Evangelho hoje é sobre isto; não é sobre o desespero, nem o castigo, mas sobre a esperança, o amor e o perdão.

E então ele se levantou, e foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou e compadecido dele, correndo o abraçou e beijou (Lc. 15: 20).

O Pai está sempre esperando que nós retornemos a Ele, que despertemos da ilusão da felicidade e prosperidade que o maligno cria ao redor de nós e que corramos até Ele, reconhecendo nossas faltas, abraçando-o com todo nosso ser, deixando que Ele seja um conosco, guiando nossas vidas que Lhe pertencem – não a terras longínquas, mas aqui, em comunhão com o Seu amor. Felicidade geralmente não está nas coisas que almejamos, mas nas coisas que já temos. Quer fazer alguém feliz? Ensine-o a ser feliz com o que ele tem. Se queres fazer alguém infeliz, mostre-lhe o mundo.

Estou certo de que muitos de nós sentiu um momento de mudança. Para alguns este momento foi a conversão de uma religião diferente à Ortodoxia. Para o cristão ortodoxo este é o momento que ele realmente compreende o que lhe estava faltando e então retorna a suas raízes. É um momento de muito poder: é um momento de mudança de vida.

No entanto muitos, depois de atingirem este momento, depois de passada a efervescência deste momento dizem: “Pronto. Cristo voltou à minha vida. Jejuo, vou à Igreja de vez em quando, comungo, tudo ok!” Mas isto não passa de outra ilusão de segurança, pois que nosso mau caminho que esteve conosco por toda nossa vida encontra uma forma de retornar bem no momento em que pensamos que ele se foi. Sabem o que se diz sobre os vícios: uma vez, sempre. Pecado, e especialmente o pecado repetitivo é também um vício, logo podemos parafrasear dizendo: uma vez pecador, sempre pecador. Tal como o alcóolatra vai encontrar uma maneira de chegar até a garrafa, assim o pecador vai encontrar um caminho para retornar ao pecado.

O impulso do momento não é suficiente para assegurar a salvação para nós; a transformação deve ser mais profunda – não somente na superfície, mais interiormente, no profundo de nosso ser. De outra forma, a emoção passará e retornaremos à terra longínqua, com as festas, as meretrizes, e as falsas amizades.

Mesmo até os maiores Santos não deixaram de vigiar até partirem ao encontro do Senhor. Estavam sempre em guarda, como guerreiros, travando o combate interior com seus pensamentos e as tentações do mundo. Esta é uma guerra que devemos vencer, mas a vitória só vem no final.

Assim, o único caminho para assegurar uma verdadeira mudança em nossas vidas é alinhar nossas vidas em completa obediência a Deus, deixando que Ele nos guie para junto d´Ele, deixando que Ele pegue em nossa mão e nos leve pelos obstáculos da vida como o guia que leva os cegos. De fato, estamos espiritualmente cegos, necessitamos deixar que Ele abra nossos olhos para que alcancemos a vista, o belo plano que Ele preparou para nós desde o princípio do mundo. Ele não quer que soframos; Ele não quer que sejamos um bando de moralistas tristes, sem graça alguma. Ele somente quer que deixemos de resistir à mudança que Ele deseja operar em nós. Que abramos nossos corações para a mudança que Ele traz.

Através do pecado, introduzimos corrupção e mortalidade em nossos corpos. Cristo deseja reparar isto – Ele traz imortalidade e incorruptibilidade. Ele nos mostrou o caminho sendo o primeiro a reconquistar, enquanto homem, o lugar de direito da humanidade à destra do Pai.

Uma coisa, no entanto, é necessária – somente uma – morrer. Não podemos viver para sempre nestes corpos; eles precisam ser destruídos para serem então modificados. Falando de forma mais prática, devemos morrer para o pecado, para então nascemos na virtude. Devemos morrer para este mundo material a fim de sermos recebidos no Reino espiritual. Devemos desistir da escravidão de nossas transgressões para então vaguearmos com o Senhor.

Até não cumprirmos isto permaneceremos filhos pródigos, fugindo a cada vez que o Pai Se vire contra nós. É verdade que o Pai sempre nos receberá de braços abertos. Todavia, apesar de Sua paciência, Seu amor e compreensão infinitas, não vivemos para sempre – uma vez mortos, nada mais pode ser feito. Não devemos esperar pelo segundo anterior à morte para nos arrependermos, para clamarmos: “Pai, errei! Perdoa-me!” Quem conhece o tempo da morte? Somente Deus, logo o momento da mudança não deve ser aos 70-80 anos, depois de termos gastado uma vida longe de Deus. Não, este momento é agora, na idade dos 20, 30, 40 – o mais breve possível, antes que o pecado faça de nós pessoas viciadas; antes que o pecado se torne nossa segunda natureza que não podemos sacudir.

Vamos orar então para que o Pai que nos criou com Suas próprias mãos nos faça dom da sabedoria para mudarmos agora nossa vida, antes que seja tarde; que Ele nos dê forças para permanecermos firmes nesta mudança, a fim de que passemos o fim de nossos dias procurando que Ele possa nos abrir Seus braços paternos plenos de amor e dizer: “Bem-vindo filho amado, entra na alegria de teu Pai!” Amém.

pelo Fr. Vasilie Tudora

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