Carta da Santa Comunidade do Monte Athos ao Patriarca Bartolomeu sobre a visita do Papa de Roma à Constantinopla em novembro de 2014



A Santa Comunidade do Monte Athos dirigiu ao Patriarca de Constantinopla, Bartolomeos, uma carta concernindo a visita do Papa de Roma à Constantinopla em novembro de 2014. Redigida no mês de dezembro, ele foi publicada somente agora.

Santíssimo Pai e Senhor,

Dirigimo-nos à vossa Toda-Santidade com profundo respeito no Senhor, submetendo-vos nossas civilidades filiais e nossos humildes votos por ocasião da entrada de mais um novo ano na bondade do Senhor, comemorando dia e noite o Vosso venerável nome em nossa humildes orações.

Tendo nos tornados dignos de nos instalarmos no Jardim da Nossa Soberana a Mãe de Deus, celebrando os serviços divinos ou lendo os escritos dos Padres Teóforos, veneramos dentre eles os santos hieromártires Cosme o Proto (1) bem como aqueles que estavam com ele, porque por sua confissão e seu sangue “mantiveram a Igreja imaculada da ilusão e do erro”, “não querendo comungar com os latino-fônos nem se concordarem com eles” (tropário da 3ª Ode e Kondákion). Da mesma forma, com São Nicodemos o Hagiorita, glorificamos São Marcos de Éfeso Eugenikos, pois que “se mostra inflexível diante dos ataques dos adversários da fé divina, os falsificadores latinos que a alteraram”, lemos também junto a São Silvano o Athonita: “Como somos bem-aventurados, nós os cristãos ortodoxos, pois o Senhor nos deu a vida no Espírito... Creio somente na Igreja Ortodoxa, pois que nela se encontra a alegria da salvação, que se adquire pela humildade em Cristo!”

Educados nesta tradição espiritual e meditando sobre as lutas dos Padres de outrora bem como aqueles de recente época pela nossa santa fé sem inovações, é-nos difícil compreender o que se produziu, por ocasião dos dias de Festa da memória do Santo Apóstolo André, o Primeiro-Chamado. Em efeito, num instante muitíssimo sagrado da Santa Anáfora, nosso Patriarca, saindo do santo santuário, dá o beijo litúrgico ao Papa de Roma que havia revestido o omofórion e que em seguida pronuncia a Oração do Senhor.

Tendo escutado a inquietude dos padres e irmãos que vivem na ascese na Santa Montanha, exprimimos a perplexidade que nos comove, pois que os fatos, acima mencionados, ferem o sentimento dogmático e litúrgico, provocando, em outra, a confusão nas consciências dos cristãos do mundo inteiro. Repetidos, estes fatos dão o sentimento que não nos leva nem serva a nada, senão a provocar o escândalo, visto a estagnação do diálogo teológico iniciado a decênios, de sorte que a visão da unidade na verdade e por única vez parece ser uma realidade inacessível. E eis que muitos católicos-romanos, decepcionados com a secularização da Igreja Ocidental, impregnada por doutrinas heréticas do papismo, buscam uma saída na Igreja Ortodoxa.

Na qualidade de Santa Comunidade, Vossa Toda-Santidade, consideramos ser um dever filial fazermos parte de nossa viva inquietação, de que aspiramos a que permaneça inabalável a unidade eclesial dos ortodoxos do mundo inteiro e de nosso corpo athonita, pois que não escondemos estarmos afligidos e inquietos com a ideia da eventualidade de reviver-se os acontecimentos que tiveram lugar há 50 anos (2). Naturalmente, não desejamos ver que se repitam, visto suportarmos ainda as consequências dolorosas, como a Vós relatado em nossa carta da Santa Comunidade N° F2/7/1679/18.7.2014.

Conscientes do pesado fardo que levais, nós Vos submetemos isto com dor e um coração apertado, rogando filialmente que vos preocupeis paternalmente em apaziguar as consciências de nossos irmãos “pelos quais Cristo morreu”, suplicando Vossas orações patriarcais e reverenciando profundamente Vossa preciosa destra”.

Assinado: Todos os representantes delegados dos vinte monastérios da Santa Montanha do Athos em Sinaxe comum.


NOTAS:
1.       Tendo recusado a União de Lyon (1274), foi martirizado pelos soldados do Imperador Michel VIII Paleólogo.
2.       Quer dizer, a interrupção da comemoração do Patriarca de Constantinopla na maioria dos Monastérios Athonitas.

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