quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Sobre a Soberba




Que David foi escolhido para profeta e rei no Povo de Deus e dotado dum alto grau de misericórdia e mansidão, julgo que tu, caríssimo, o tens conhecido pelos testemunhos dos Sagrados Livros. Considere, pois, a tua prudência quanto aquele homem aceito a Deus temeu se lhe introduzisse esse péssimo espírito da vanglória. Porque, vendo quais e quão grandes bens lhe dispendia todos os dias a graça de Deus, isto é, tantas vitórias sobre o estrangeiro, tanta afluência de riquezas, a vingança nos inimigos, a população nos cidadãos, a mansidão nas sentenças, finalmente o dom profético do Espírito Santo para conhecimento de todos os futuros, temendo que, introduzindo-se-lhes no uso de tão grandes bens alguma vanglória, o empolasse a elevação, ora a Deus com instância, dizendo: " Não me chegue o pé da soberba, nem a mão do pecador me abale. Ali caíram todos os que obram a maldade, foram derribados e não puderam ter-se." (Sal.35, 12-13).

Isto era pois o que o Rei David pedia que se lhe não introduzisse; que não sucedesse que, induzido de alguma sugestão de vão louvor, o atribuísse, não à divina graça, mas ao próprio poder, visto ser tão grande.

Vejamos pois o que isto quer dizer:   " Não me chegue o pé da soberba."

O pé no homem, posto seja a extremidade do corpo, é contudo, se pensarmos bem, como que o fundamento e princípio da estatura, sobre o qual se levanta toda a altura formada da figura carnal. E assim: "Não me chegue ao pé da soberba", é o mesmo que dizer: "Não me chegue o princípio da soberba", isto é, a vanglória, de cujo fundamento se produz aquele ruinoso altear da soberba. Porquanto uma é gerada da outra, embora poucos tenham a penetração necessária para pressentir a aproximação dela. Na verdade, em se gloriando os homens demasiadamente de algum bem, logo se segue não o atribuírem a benefício de Deus, mas a seu próprio poder.

Consiste pois a vanglória em nos deleitarmos nos louvores humanos. E a soberba em aplicarmos o bem, por que somos louvados, a nós mesmos e não a Deus.

E assim a vanglória nutre-se da estimação alheia, e a soberba da vanglória.

Tanto que o homem começa a aceitar que o gabem os outros de ser grande, é inevitável o concordar ele mesmo também nisso. E a esta miséria se segue logo outra pior: que tudo aquilo que consigo deu por certo pelo próprio testemunho, posto que seja falso, não haverá persuasão que lho tire da cabeça e, fazendo-se incorrigível, desprezando os mais, só a si quotidianamente admira, julgando irrepreensível e perfeito somente aquilo a que ele tem alcançado.

Porém o que aos homens entumecidos do espírito de soberba sobrevenha, o mesmo Profeta o declara logo nas palavras imediatas. Pois que tendo dito: não me chegue o pé da soberba, acrescentou logo: nem a mão do pecador me abale. Porque sabia que a toda a soberba segue prontamente variedade de pecados. Assim é, na verdade. Porque todo o que se deixa inchar da soberba pretende imitar a glória de Deus, em que ninguém lhe seja semelhante, o qual, em verdade sacrilégio, com a injúria de Deus se exalta e, desamparado dele, é entregue às mãos dos pecados, quer dizer, às obras de atos imundos, para que, curvado debaixo de vergonhosos crimes, conheça que é terra e cinza, e o que, elevado, não pôde ver em si, o enxergue humilhado. E por isso diz Salomão: "é imundo aos olhos de Deus todo aquele que exalta seu coração." (Pv.16, 5)

Mas vejamos o que se segue nas palavras do Rei David. Ali, diz ele, "caíram todos os que obram a maldade: foram derribados, nem puderam ter-se em pé" (Sal.35, 13). Evidentemente mostra que o princípio da ruína de todos os maus está na soberba. O mesmo está escrito em outro lugar: "O princípio do pecado é a soberba" (Ecles.10, 15). E, para que isto mais claramente se demonstre, lembremo-nos da queda daquele primeiro Anjo que, tomando do esplendor da sua formosura o nome de Lúcifer, por nenhuma outra causa se despenhou daquele sublime e bem-aventurado lugar dos Anjos aos infernos, senão por este vício da soberba. Porque, sobressaindo no lustre de mais brilhante formosura entre as outras celestiais Virtudes, creu dever isso à própria virtude, e não a benefício do seu Criador; e, como se não necessitasse do auxílio de alguém à maneira de Deus, se julgou semelhante a Ele, dizendo: "Levantarei o meu trono da parte do Setentrião e ficarei semelhante ao Altíssimo" (Is.14,14). Este só pensamento o derribou, porque, desamparado logo de Deus, de cuja proteção julgou não necessitar, tornado de repente fraco e miserável, sentiu a mutabilidade da sua natureza, que não tinha conhecido, e perdeu o dom de Deus que possuía. Depois disto, vendo que no lugar da bem-aventurança, que ele perdera, entrara o homem que Deus fizera de barro, instigado de inveja o acometeu com a mesma arma da soberba, com que ele fora derribado. Porque a si tinha dito: "Serei semelhante ao Altíssimo". E a Adão e Eva disse: "Sereis como deuses" (Gen.3,5). E apetecendo eles isto, não por outra causa senão para se tornarem como deuses, transgrediram a lei de Deus. Oh! quanta cegueira há no apetite da vanglória. Não viu o homem tão descoberto engano, em que avessamente se lhe promete a semelhança a Deus, não proveniente da obediência para com Ele, mas do desprezo.

Eis aqui a morte dada no engodo daquele primeiro veneno que, disfarçado com o amargosíssimo mel da vã jactância, enganou o anjo e o homem. Por este caiu a criatura celestial e a terrena. Por este foram derribadas dos seus tronos, do céu aquela, esta do paraíso, e não puderam ter-se, que não dessem a maior queda.

Que mal seja, pois, o da soberba que o Rei David sem disfarce temeu, ele mesmo o declarou pelas expostas causas das ruínas.

Todas as castas de pecados, como a luxúria, a avareza, o adultério e outros quaisquer, posto que provoquem a ira de Deus, o castigo deles o executou por meio dos Anjos, ou por meio  dos homens. Mas a soberba merece ter por adversário não tanto a outro, como ao mesmo Deus. Pois que está escrito: "Aos soberbos Ele mesmo resiste" (S. Tiago 4, 6 / S. Pedro 5, 5). Porque os demais vícios ou recaem sobre aqueles mesmos que os perpetraram, ou parece redundarem em outros homens. Mas esta inchação da soberba se alça propriamente contra Deus, e por isso O tem por inimigo, porque, aspirando ao excelso, sempre apetece o que só a Ele é próprio.

E ainda que esta peste da soberba geralmente seja perniciosa, contudo de nenhuns deve ser mais temida que daqueles que espiritualmente têm chegado à perfeição das virtudes ou temporalmente à abundância de riquezas, ou a altos títulos de honras, pois que tanto nestes se faz ela maior, quanto é maior o que se ensoberbece. Nem se contenta com arruinar os vis e plebeus, mas arma ciladas aos que são maiores, dos quais quanto é mais alto o posto, tanto mais alta é a queda. E daqui vem o dizer a Escritura, falando do mesmo espírito da soberba: "E é escolhida a sua comida" (Hab.1, 16). Acomete ele os homens escolhidos e sublimes. Sugere-lhes que são grandes, que de nada necessitam, que quanto obram, pensam ou falam tudo é sabedoria, tudo é prudência. E se alguma coisa pela providência de Deus lhes sai bem, imputando-a logo às suas próprias forças e à sua indústria, exclamam: "Eu fiz isto, eu o disse, eu o excogitei"; e, roubada a glória de Deus, à semelhança d'Ele se propõem a si como objeto do pasmo e admiração de todos. Aos quais, subtraindo Deus por justo juízo os seus auxílios, os entrega, como diz o Apóstolo, ao sentido réprobo, para que obrem ou considerem o que não convém (Rom.1, 28). Porque, conhecendo que a todas as coisas assiste a providência de Deus, não o glorificam como Deus, nem lhe dão as graças, mas, gloriando-se de si mesmos, se esvaecem nos próprios pensamentos. Porque, dizendo de si mesmos que são sábios, são na realidade estultos, jactando-se de firmes, invencíveis, poderosos, são na realidade frágeis, vencíveis e fracos. E sendo isto assim, bem manifestamente ficamos sabendo que com toda a vigilância e com todo o desvelo do coração devemos fugir ao apetite da vanglória, para que não suceda que, introduzido uma vez no nosso coração o peçonhento contágio de tal doença, crescendo no meio da prosperidade das nossas obras com o sutilíssimo deleite dos humanos louvores, produza da abundância da sua maldade o péssimo e cruelíssimo parto da soberba. As quais, ambas arraigadas em pestíferas raízes, tanto que entraram nos esconderijos do espírito humano, mudada a cada passo a forma das ciladas, assaltam aos despercebidos.

Com efeito, àqueles que se têm dado a exercícios espirituais, logo a vanglória se insinua por meio dos jejuns, das vigílias, da lição da solidão do ermo, da paciência, do silêncio. E, se esta sugestão não for logo descoberta pela perspicaz vista do entendimento, se lhe ajunta por companheira com mais cabedal a soberba, a qual lhes diz, mentirosa, que eles são mais santos e melhores que todos, e lhes inculca que a firmeza da própria virtude de tal sorte os segura no mais alto cume da perfeição, que jamais poderão cair.

Quanto porém àqueles que ainda estão presos dos deleites das carnais paixões, em se lhes aposentando no ânimo, logo de uma e outra rebentam diversas plantas de vícios. Porque a vanglória gera de si presunção de todas as novidades, invenções de falsos dogmas, torturas de questões, contendas, heresias, seitas, cismas. E a soberba produz indignação, inveja, desprezo, detração, murmuração e, a que mais é abominável que todas estas, a blasfêmia.


Dos quais males se alguém seriamente deseja extirpar as causas, arranque primeiro de si as origens e raízes delas. Porque os ramos de quaisquer vícios que sejam só se poderão extirpar totalmente, arrancando-lhes as mesmas sementes antes que vegetem.

"Bracara Augusta" - Obras de São Martinho Bracarense
vol.XXIX ano 75, números 67 & 68, p. 79-80

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