segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O homem torna-se deus

Epifania
No século IV, para afirmar contra o Arianismo a divindade de Cristo, criou a Igreja a Festa de Natal, colocando-a no solstício do inverno, quando em Roma os dias recomeçavam a crescer, celebrando os pagãos o nascimento do Sol Invictus. No Oriente se procedeu do mesmo modo, caindo então a Festa no dia 07 de janeiro e recebendo o nome de Epifania, que significa manifestação: a manifestação de um rei ao visitar pela primeira vez uma das suas províncias. E a Igreja do Ocidente passou a adotar também a festa do Oriente, que tinha um conteúdo mais amplo: além de celebrar o nascimento do Filho de Deus reconhecido pelos Magos como Rei dos Reis, sugeria ainda dois outros mistérios da manifestação de Jesus. Vinha Ele como Esposo, tendo desposado a humanidade ao fazer-Se homem, realizando o Seu primeiro milagre nas bodas de Caná. Mas também submetia-Se ao Batismo de João, o que constitui objeto de uma Festa especial: a do Batismo de Jesus. Mas seríamos tentados a perguntar: "Por que Jesus Se batiza"?
Se a imersão nas águas, até mesmo em outras religiões, constitui um rito purificatório, por que Jesus Se batiza? Pois d´Ele se espera justamente o contrário, como diz o hino litúrgico, que tive a oportunidade de traduzir, como os demais do Breviário antigo: "Nas águas é lavado / o celestial Cordeiro: o que não tem pecado / nos salva do primeiro". Ora, o Batismo de Jesus é uma ocasião não só para que o Batista O proclame como o Messias ("Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo"), como também para que os céus se abram, e a voz do Pai proclame: "Esta é o Meu Filho mui amado!" Ao humilde testemunho dos pastores, às notícias levadas pelos magos, às misteriosas palavras de Ana e Simeão no Templo, soma-se agora o solene e claro testemunho das outras duas pessoas da Trindade a respeito do Filho feito homem: pois eis que o Espírito Santo também paira, em forma de pomba, sobre o filho do carpinteiro. O ciclo do Natal se consuma e completa com esta Festa que o encerra: o que era tido como filho de José pode agora começar sua missão divina, juntando aos 30 anos de silêncio e vida oculta três anos de pregação e vida pública.
Jesus não vai portanto ao batismo em busca do perdão dos pecados, e nem o batismo de João tinha o poder de perdoa-los. Quem os pode perdoar, senão o próprio Deus? O batismo de João, lembra João Crisóstomo, era superior aos outros porque supunha naqueles que o recebiam uma atitude espiritual. O desejo e o compromisso de uma vida nova: era um batismo de penitência, mas não ainda um batismo de perdão. Superior aos repetidos batismos judaicos (e os havia também em outras religiões), era o de João uma espécie de ponte para o nosso, que só o Filho de Deus poderia dar-nos, transformando em Sacramento - sinal eficaz, que produz realmente o que significa - o que fora até então simples sinal simbólico.
E vamos encontrar, então, em São Máximo de Turim, outro motivo para o batismo de Jesus, além da proclamação da Sua divindade: "O Cristo foi batizado, não para ser santificado pelas águas, mas para santificar e purificar as que o tocassem. Trata-se, portanto, muito mais da consagração das águas do que da consagração do Cristo. Pois, no momento em que o Salvador foi lavado, todas as águas se tornaram puras em vista do nosso batismo. O Cristo caminha para o batismo, a fim de que os povos cristãos A sigam sem hesitar, como os israelitas à coluna de fogo. Ao transporem na Páscoa o Mar Vermelho".

Por isso Santo Hipólito de Roma nos faz o elogio das águas: "As obras de nosso Salvador são todas de grande beleza. Mas que presente mais precioso do que a água? Tudo é banhado, nutrido purificado, regado pelas águas! A água carrega os continentes, faz nascer o orvalho, desabrochar a vinha, amadurecer a espiga... Sem água nenhuma vida subsiste. Mas o que, acima de tudo, desperta o nosso respeito, é que Jesus Cristo, o Criador do mundo, tenha querido descer como orvalho, tenha-Se revelado como água viva, tenha-Se espalhado como rio impetuoso, tenha sido batizado no Jordão. "O rio que alegra a cidade de Deus" mergulhou na pobre correnteza; a inefável, que faz brotar toda espécie de vida e nunca se extingue, deixou-Se recobrir por águas fúgidas. (...) Eis que o Senhor Se aproxima, pobre, sozinho e nu, velando sob um corpo humano a glória da dignidade. Seria pouco dizer que Ele vem a João como um chefe que dispensa a sua escolta. Ele o aborda como um simples pecador, e inclina a cabeça para ser batizado. Então ouve-se a voz de Deus sobre as águas: "Este é o meu Filho Unigênito, de natureza divina. Ele sente fome, e alimenta as multidões; Ele sofre e cura os sofrimentos; Ele não tem onde repousar a cabeça, e sustenta tudo em Suas mãos (NdT: eis o significado correto de Pantocrator); Ele é esbofeteado pelos homens e devolve ao mundo a liberdade. Vinde, nações todas, à imortalidade do Batismo. E, se o homem é tornado imortal, torna-se deus também".

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