quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Trabalhando a virtude da paciência - belo convite ao período de Jejum do Natal


Como já comentado, o período de Jejum é o tempo a nós ofertado pela Igreja para a purificação do terreno do coração, no trabalho não só da abstinência de alimentos, como da oração e, sobretudo, na ascese da aquisição das santas virtudes.

O tema do post é a PACIÊNCIA. Tal mal interpretada por muitos, porque talvez desconhecida. Ela é que regula aquela raiva que temos, quando remoemos maus pensamentos, rancores, mágoas para com nossos próximos e em relação a situações que não são conforme a nossa vontade própria. 

Abaixo destacamos um extrato da obra "Conferências" de um grande Padre do Deserto, São João Cassiano, monge entre os séculos IV-V, fundador de um Cenóbio (Comunidade Cenobítica Monástica) no sul da França, ordenado Diácono por São João Crisóstomo, ele é um conhecedor exímio da ciência da alma. 

Retrata, de maneira simples e compreensível à qualquer um, como a alma reage na aquisição e no domínio da paciência - esta grande virtude, sem a qual nenhuma outra seria possível.

Lembremos que para ser bom discípulo do Mestre é necessário tomar a sua própria cruz e segui-Lo. Cruz não é somente um ato de subida voluntária ao Gólgota, mas também o vivenciar do hiato que espera a redenção - este vazio cumulado de dor é a santa paciência. 


Pergunta: Gostaria de saber como se adquire e conserva a tranquilidade da alma. Por certo é bom coagirmos ao silêncio, manter a boca fechada e reprimir toda licença verbal. Mas a doçura do coração precisaria ser mantida também. E às vezes, mesmo quando se consegue refrear a língua, perde-se a paz por dentro. Por isso, reter o bem da brandura não nos parece possível, a não ser que se viva solitariamente numa cela...

Resposta: Só por profunda humildade de coração é que se adquire e conserva a verdadeira paciência e a tranquilidade. A virtude que emana dessa fonte não sente a menor falta do benefício de uma cela ou do refúgio da solidão. Por que iri ela se pôr à procura de um apoio externo, se é interiormente sustentada pela humildade, que é a sua mãe e guardiã?

Por outro lado, se cedemos a uma emoção, quando alguém nos provoca, por certo a estabilidade dos fundamentos da humildade não está garantida em nós. Qualquer borrascas que advém é então suficiente para abalar nosso edifício espiritual, ameaçando arruiná-lo. Mas a paciência não merece admiração nem louvores por manter-se tranquila, se não tem um inimigo que lhe atire dardos. Perseverar imóvel, quando desaba sobre ela a procela da tentação, é que a torna ilustre e gloriosa. Quando se pensa que a adversidade vai enfraquecê-la e desconcertá-la, daí mesmo é que ela extrai sua força: seu gume se torna mais agudo com o que iria aparentemente embotá-lo. Ninguém ignora que paciência vem de padecer e suster. Claro, está, por conseguinte, que só merece ser dito paciente quem suporta sem revolta todos os maus tratos que lhe são infligidos. Esse, com plena justiça, é louvado por Salomão: O homem paciente é rico em prudência, mas o impulsivo aumenta o desatino (Pr.14, 29).

Se alguém portanto, vencido pela injúria, inflamar-se de cólera, não se deve crer que a causa desse pecado seja a mordacidade da afronta, que apenas torna manifesta uma fraqueza oculta. Vemos realizar-se aqui a parábola de nosso Senhor e Salvador sobre as duas casas, uma fundada na rocha, a outra sobre a areia (cf. Mt. 7, 24 ss). As chuvas, enchentes e ventos da tempestade atingem ambas de igual modo. Contudo, se a que está alicerçada na solidez da rocha aguenta o choque violento sem sofrer dano algum, a que foi construída sobre a areia, que é instável e móvel, sem tardança se arruína. Parece pois tão claro como o dia que não foram as torrentes e inundações que a atingiram que a fizeram ruir, mas sim a imprudência daquele que a erigiu sobre a areia. A diferença entre um pecador e um Santo não provém de ambos não serem semelhantemente tentados, mas sim de o último não se deixar abater nem pelos mais graves ataques, ao passo que a tentação mais ligeira basta para dominar o primeiro. Dissemos que a força do justo não faria jus a elogios se ele triunfasse sem ser tentado. Como é possível haver vitória sem luta contra o adversário? Mas feliz o homem que suportar a provação, porque, provado, receberá a coroa da vida que Deus prometeu a quem O ama (Tg. 1, 12). Do mesmo modo, segundo o Apóstolo Paulo, não é no repouso nem no deleite, mas na fraqueza, que a força chega à perfeição (II Cor. 12, 9). Pois está dito: Eis que te constituo hoje como uma cidade fortificada, uma coluna de ferro, uma muralha de bronze diante de todo o país, diante dos reis e chefes de Judá, diante dos sacerdotes e todo o povo. Eles lutarão contra ti, mas não prevalecerão, porque Eu estou contigo para te libertar - oráculo do Senhor (Jr. 1, 18-19).

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