O pecado não é um problema moral

Padre Stephen Freeman

Muitos leitores nunca ouviram antes que não existe coisas como progresso moral – logo, não estou surpreso por me terem pedido para escrever mais profundamente sobre este tópico. Iniciarei focando na própria questão do pecado em si. Se entendemos corretamente a natureza do pecado e seu verdadeiro caráter, a noção do progresso moral será vista mais claramente. Começarei clarificando a diferença entre a noção de moralidade e o entendimento teológico do pecado. Existem dois mundos bem diferentes.

Moralidade (tal como uso a palavra) é um termo amplo que geralmente descreve a aderência (perda ou aderência) a um conjunto de padrões ou normas de comportamento. Neste entendimento, cada um pratica algum tipo de moralidade. Um ateísta não crê em Deus, mas continua tendo um sentido internalizado de certo e errado, bem como um bocado de expectações para ele próprio e para os outros. Nunca houve um acordo universal de padrões morais. Povos diferentes, culturas diferentes têm uma variedade de entendimentos morais e maneiras de discutir o que significa “moral’.

Observei  e escrevi que a maioria das pessoas não progredirão moralmente. Isto quer dizer que não seremos melhores, de uma forma geral, ao observarmos qualquer que seja o padrão e a prática que consideramos ser moralmente correto. 

Isto difere fundamentalmente com o que se chama “pecado”, em termos teológicos. A falha ao aderir a certo padrão moral deve ter certo aspecto de “pecado” por baixo, mas quedas morais não são a mesma coisa que pecados. Da mesma maneira, exatidão moral não é, de todo, a mesma coisa que “justiça”. Uma pessoa pode ter sido moralmente correta por todo tempo de sua vida (teoricamente), mas permanece atolada no pecado. Se compreendermos o quê é pecado, as coisas ficam mais claras...

“Pecado” é uma palavra usada frequentemente de maneira errônea. Popularmente é usada tanto para denotar infrações morais (quebrar regras), ou religiosamente, quebrar as regras de Deus. Então, alguém pergunta, “É pecado fazer isto e aquilo?” o que querem dizer é “É contra Deus fazer isto e aquilo?" Mas isto é incorreto. Corretamente, pecado é algo bastante distinto do quebrar as regrar – São Paulo fala sobre isto de uma maneira bem diferente:

“Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum: pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e, sim, o pecado que habita em mim.” (Rom. 7: 18-20)

“Pecado que habita em mim?” Obviamente “quebrando as regras” não é um significado que se encaixa de forma alguma. O pecado tem um significado completamente diferente. Podemos tomar seu significado novamente de São Paulo:

“Porque, quando éreis escravos do pecado, estáveis isentos em relação à justiça. Naquele tempo que resultados colhestes? Somente as coisas de que agora vos envergonhais; porque o fim delas é a morte. Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna; porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor” (Rom. 6: 20-23).

Aqui, o pecado é algo que podemos guardar em cativeiro, e cujo fim é a morte. Então, o que é o pecado?

Pecado é a palavra que descreve um estado de estar – ou, mais precisamente, um estado ou processo de não estar. É um movimento longe de nossa existência própria – dom de Deus à Sua criação. Deus sozinho tem Verdadeiro Ser – Ele sozinho é auto-existente. Tudo de mais que existe é contingente - é totalmente dependente em todos os momentos a Deus, em sua existência. Quando Deus nos criou, de acordo com os Padres, Ele nos deu a existência. Ao crescermos em comunhão com Ele nos viramos (progredimos) ao bem-estar. Seu dom final por nós, e esta união à qual nos movemos corretamente, é o ser eterno.

No entanto, existe um oposto a esta vida de graça. Este é um movimento à não-existência, um movimento longe de Deus e uma rejeição de bem-estar. É este movimento que é chamado “pecado”. Podemos estar presos a isto, tal como uma folha presa a um redemoinho. O pecado não é nada por si só (pois que o não-estar não tem existência). Mas está descrito nas Escrituras por palavras tais como “morte” e “corrupção”. Corrupção ou “podridão” (φθορά) - eis uma excelente palavra para se descrever pecado. Pois que é a dissolução gradual (“um movimento dinâmico ou processo”) de algo formalmente vivente – sua decadência gradual ao pó.

Isto difere contundentemente da ideia de pecado enquanto “quebrar regras morais”. O quebrar das regras implica somente num erro externo, uma mera infração legal ou forense (judiciário). Nada da substância mudou. No entanto, a Escritura trata o pecado mais profundamente – ele é em si uma mudança de substância, uma queda de nosso próprio ser.

E eis que alguns re-pensamentos criativos se tornam necessários. Os hábitos de nossa cultura nos levam a pensar no pecado em termos morais. Isto é sempre, toma todo pequeno esforço, e concorda com o que todo mundo em torno de si pensa. Mas teologicamente está errado. Isso não quer dizer que você não pode encontrar esses tratamentos moralistas nos escritos da Igreja - particularmente em escritos dos últimos séculos. Mas, a captura da teologia da Igreja pelo moralismo é um verdadeiro cativeiro e não uma expressão da mente ortodoxa.

Logo, como pensar em certo ou errado, em crescimento espiritual e na própria salvação se o pecado não é um problema moral? Não ignoramos nossas falsas escolhas e paixões desordenadas (hábitos de comportamento), mas as vemos como sintomas, manifestações de um profundo processo. O cheiro de um cadáver não é o problema real, e tratar o cheiro não é de todo a mesma coisa que a ressurreição (deste corpo).

A obra de Cristo é a obra da ressurreição. Nossa vida em Cristo não é uma questão de melhoria moral – é a vida da morte. Somos sepultados em Sua morte – e isso é uma morte verdadeira – completa com tudo o que a morte quer dizer. Sua morte, no entanto, não atingiu a corrupção. Ele destruiu a corrupção. Nosso Batismo na morte de Cristo é o Batismo na incorruptibilidade, a cura do cisma fundamental de nossa comunhão com Deus.

Logo, o que esta cura vem a ser? É errado esperar que algum tipo de progresso venha tomando parte ai?

Minha experiência de vida (34 anos enquanto sacerdote) e a leitura dos Padres e a Tradição sugerem que tal expectação são em verdade descolocadas. Intriguei-me com isso por muitos anos. Cheguei a pensar que nossa salvação é similar à realidade dos sacramentos. O que você vê na Eucaristia? O Pão e o Vinho passam por uma mudança progressiva? Vemos alguma transformação diante de nossos próprios olhos?

O que parece ser verdade é que nossa salvação se encontra bem escondida – por vezes até de nós próprios. A fé cristã é “apocalíptica” em sua natureza própria – é uma “revelação do que está escondido”. As parábolas são repletas com imagens de surpresa: um tesouro descoberto, etc. Salvação tem uma ideia de aparência.

Encontrando nossa salvação significa afastando-se da aparência das coisas. Isto requer uma re-orientação interior profunda e fundamental de nossas vidas. Isto requer uma obra interior de arrependimento. A vida moral é vivida na superfície – até os ateístas se comportam de maneira moralmente correta. Quando nos viramos a Cristo, passamos por baixo da superfície. Começamos a ver o quão efêmeros e confusos são nossos atos.

Estas ações são, na maioria das vezes. a obra de um ego falso, um ego que está fissurado e envergonhado, combate freneticamente “para ser melhor”. No entanto, o cerne da vida espiritual não é através deste caminho de um ego melhorado, mas através de um caminho de “morte do ego”, no qual perdemos uma existência que não é a de nosso verdadeiro ego, e aprendemos uma experiência que é nossa em Cristo. Mas o que vemos geralmente é algo a mais. Pois que enquanto estamos encontrando a verdade, o outro ainda se apega a sua falsa existência - e este é principalmente o que vemos e que os outros vêem. A obra escondida da salvação permanece invisível.

Não é de todo incomum na vida dos Santos que a santidade de um indivíduo permaneça escondida até sua morte. Este foi o caso de São Nectário de Egina. Rejeitado por muitos, embora visto verdadeiramente por alguns. Doravante, após sua morte, milagres começaram a fluir dele, e de repente relatos e histórias começam a surgir.

E misteriosamente, parece que esta vida oculta muitas vezes é tão escondida do próprio Santo (assim como nossa verdadeira vida é oculta de nós). Penso que Deus nos preserva o fardo deste conhecimento em função de nossa salvação.

Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra. Porque morrestes e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo que é a nossa vida Se manifestar, então vós também sereis manifestados com Ele, em glória” (Col. 3: 2-4).

Isto é novamente, o caráter apocalíptico da vida cristã. Estamos mortos e nossa vida verdadeira está escondida com Cristo em Deus – e eles aparecerão quando Ele aparecer.
Logo, o que vemos nesta vida? A simples resposta é clara: Cristo. Não há espaço para nossa própria melhoria, mas Cristo. Nossa melhoria própria cessa esporadicamente a ter importância quando encontramos Cristo. E quanto mais O encontramos, mas claramente a falsa natureza do ego parece clara para nós e assim podemos dizer: “Sou o pior dos pecadores.”

pelo Padre Stephen Freeman

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