Como podemos aprender a amar o nosso próximo?


O Bom Samaritano - de Van Gogh
Esta pintura é fascinante!
Podemos ver na perspectiva tanto o sacerdote como o levita que passam de largo


Como podemos amar nosso próximo? Quem é nosso próximo? Podemos amar nossos inimigos? O Bispo Panteleimon (Shatov) de Smolensk e Vyazma, Representante do Departamento Sinodal Eclesiástico para Caridade e Ministério Social da Igreja Ortodoxa Russa, responde a estas questões.

Esta questão é colocada por muitas pessoas, incluindo eu mesmo. Antes de responder, devemos entender quem são nossos próximos. O Senhor explica no Evangelho que os nossos inimigos são todos aqueles que estão precisando de nossa ajuda – mesmo se ele nos é completamente estranho, de uma nacionalidade diferente, ou membro de outra religião. Esta pessoa pode ser desagradável em aparência e talvez não sintamos nada de positivo em relação a ela, no entanto, todo aquele que precisa de ajuda é nosso próximo. Esta pessoa o Senhor nos ordena de amar.

Existe outro Mandamento do Evangelho: amar nossos inimigos. Algumas sábias pessoas dizem que este Mandamento comporta não os inimigos de nosso país, mas nossos inimigos pessoais. Se devemos amar nossos inimigos, logo deve ser mais fácil amar nosso próximo? Mas, de fato, até isto é muito difícil para nós – para não dizer que amar nossos inimigos parece impossível.

No entanto, se o Senhor nos deu este Mandamento, quer dizer então que Ele colocou esta habilidade de amar em nós. Provavelmente achamos difícil amar não por estar acima de nossas forças, mas porque estamos ainda corrompidos pelo pecado e ainda amamos muito a nós próprios. Para amar nosso próximo, devemos fazer algo. Mas, antes de começar a fazer algo, devemos entender porque não temos o amor que deveríamos em nós próprios.

Deus colocou o amor em nossa natureza. Mas por que um esposo não ama sua esposa, ou os pais os seus filhos? Por que os filhos não amam seus pais? Por que a infidelidade e traição tomam lugar? Por que o amor natural pelos outros tornou-se antinatural? Se é difícil para nós amar nossa própria família, logo o que pode então ser dito sobre as pessoas que são diferentes de nós: os sem-abrigo, a quem desdenhosamente chamamos de vagabundos, empregados, estrangeiros?

O amor foi colocado em nossa natureza; fomos criados por Deus para amar. Mas, em virtude de algumas razões este amor não está em mim? Podemos dizer que a natureza humana, tendo se corrompido pelo pecado, perdeu esta habilidade. Este é, de fato, o caso. Fomos criados à semelhança de Deus. Deus, em Sua essência, é Amor. Fomos criados por Deus em Sua Imagem e Semelhança, com a habilidade de amar colocada em nós. Esta é a nossa natureza, também. Da mesma forma como a natureza divina é amor, assim também a natureza humana é amor.

No entanto, não é estranho que devamos amar nossos próximos, mas que não os amemos. Como pode isto acontecer? Isto acontece porque nossa natureza foi corrompida pelo pecado e nosso amor se transformou em amor-próprio. Viramo-nos para nós próprios, e doravante somos incapazes de amar.
Mas isto faz surgir outro problema. O site “Orthodox and the World” é dirigido a leitores ortodoxos. Mas os ortodoxos, além de terem amor natural, têm também o dom do amor sobrenatural. Cada cristão ortodoxo foi batizado em Nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo – em Nome da Santíssima Trindade, Que em essência é amor. E cada pessoa batizada foi ungida com o santo miron, e o dom do Espírito Santo – o dom do amor, o dom do conhecimento da vontade de Deus, de participar nos ritos sagrados – lhes foram dados nesta unção. Então, por que razão este dom não se realiza em nós?

Por que pensamos ser difícil amar nosso próximo? Depois de tudo, isto deveria ser natural e fonte de alegria para nós. Penso que a resposta é clara: é porque somos pecadores e o pecado tem força em nós. Porque deitamos por terra os dons que nos foram concedidos no Batismo e no Crisma e que se tornaram incapazes de despertar esse amor em nós. Nós não vivemos da maneira que deveríamos, mas como todo o resto que nos rodeia.

Os cristãos são parte de certa combinação do século XXI, onde não há mais espaço para o amor. Em nossas vidas temos carreira, dinheiro, prazer, certas relações contratuais, política, arte, psicologia (quando as coisas ficam ruins, nós podemos procurar um psicólogo), medicina para viver mais tempo, e entretenimento, mas não há espaço para o amor. Para nós, o amor vem em segundo lugar, ou em terceiro, ou quarto, ou décimo. Não há espaço para Deus nesta combinação, também.

Todavia, com o intuito de aprender a amar nosso próximo, devemos deixar este mundo. Foi isto que o Senhor nos chamou a realizar: deixar este caminho descendente que pode finalmente nos conduzir as profundezas do inferno; sair dessa faixa sobre a qual as pessoas estão se movendo; estas pessoas que mais parecem bondes do que pessoas.

Para amarmos nosso próximo, devemos antes de tudo cumprir este primeiro Mandamento. Devemos amar a Deus com todo nosso coração, com toda nossa alma, e com todos os nossos pensamentos e sentimentos. Sem isto, não podemos aprender a amar nosso próximo, não podemos consertar nossa natureza corrompida pelo pecado, não podemos ser transformados, não podemos aceitar os dons de Deus em sua plenitude.

Uma pequena semente de vida eterna e alegria paradisíaca foi plantada em nós, mas nem cresceu ou floresceu. No entanto, esta mesma semente pode se tornar uma árvore na qual os pássaros podem pousar. Mas, nossas vidas devem seguir esta direção.

Devemos nos lembrar de Deus, lembrarmo-nos Dele sempre. Devemos buscar a Deus, buscar unidade com Cristo. Através de um sentimento do coração e constante oração, através da leitura de nossa regra de orações, sem, no entanto, limitarmo-nos a ela. Devemos buscá-Lo pela participação nos Mistérios da Igreja, arrependendo de nossos pecados, e participando no Mistério da Santa Comunhão. Sem isto é impossível amar a Deus e nosso próximo. Devemos ler o Evangelho não como um livro ordinário, comum, mas com fé de que o Senhor, através destas palavras, pode revelar Sua vontade a nós, deixando cada pessoa conhecer o que deve fazer. Porque amor é alegria. Se não aprendemos esta alegria, passaremos pela vida à toa.

Por fim, somente podemos cumprir o Mandamento do amor pelos nossos próximos aqui na terra. No Reino dos Céus o amor será garantido a todos. Lá, ninguém terá que se esforçar em amar aqueles que não lhe são prazerosos. Isto só pode ser feito aqui na terra. Somente aqui podemos nos desprover de algo para demonstrar amor por alguém, fazendo-lhe dom disto. No Reino dos Céus, todos terão suficientemente tudo. Não haverá necessidade de cuidar do doente, vigiar o sem-abrigo, ou dar um pouco de nosso dinheiro à viúva – lá o Senhor realizará tudo.


Podemos amar nosso próximo somente aqui na terra. Se não fizermos isto, significa que não estamos vivos, porque não estamos realizando o propósito que Deus colocou diante de nós; quer dizer que nos desviamos do caminho correto. Penso que se pensarmos desta fora, podemos aprender a amar.

pelo Bispo Panteleimon Shatov

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