quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Testemunhar em uma sociedade secularizada


Vladimir Lossky

A Igreja Ortodoxa conheceu no XX século a confrontação com o mundo secularizado sob diversas formas. A dispersão dos ortodoxos pelo mundo inteiro, por razões econômicas e políticas, teve por efeito descobrir culturas de países tradicionalmente ortodoxos à existência minoritária nos países ocidentais em vias de lenta secularização – fenômeno iniciado já há algum tempo, mas fortemente acelerado no XX século.

É a secularização que conhecemos todos em nossos países industrializados, em particular da Europa ocidental. Trata-se deste estado da sociedade onde o ser humano é mais ou menos consciente e implicitamente, definido pelas suas necessidades de base, econômicas, sexuais, dominantes.

Resultado, a necessidade de transcendência, a nostalgia de Deus nas sociedades “tolerantes”, tornou-se uma das múltiplas facetas da existência, reconhecidas como um dos “direitos” que o ser humano pode reivindicar. Trata-se, cada vez mais, de um direito “privado” para um ser humano fortemente compartimentado, sem grande relação com os outros compartimentos que, sobressaem da vida social e política, únicos aspectos verdadeiramente “sérios” da vida humana.

Conhecemos todos este tipo de secularização que caracteriza nosso mundo livre, fundada sobre o bem-estar material e sobre uma concepção implicitamente materialista do homem, onde a transcendência é uma opção “a mais”. É uma secularização mais ou menos inconsciente, resultado de certo desenvolvimento cego, em partes, de um humanismo fechado: o homem é um ser auto-suficiente, fechado em si-mesmo, divinizado em si-mesmo. Não tem mais lugar ou razão de ser. Ele não serve mais, ou melhor a rigor, a recobrir o quê ainda permanece, pelo momento, inexplicado cientificamente.

A Igreja Ortodoxa, quanto a ela, conheceu ao curso deste século e sempre conheceu em outros lugares, uma secularização dum outro tipo: uma secularização totalmente consciente, ideologicamente fundada, um ateísmo ativo cujo objetivo confessado é a erradicação, a termo, da dimensão religiosa do homem, que é um ser inteiramente social, sem transcendência alguma. Trata-se de uma secularização que se torna-se religião de Estado.

Eu gostaria de falar, poderíamos melhor compreender, da Igreja Ortodoxa Russa da qual faço parte. Não é pelo espírito de paróquia que o faço mas antes porque tenho a convicção de que o quê a Igreja russa vive desde a Revolução bolchevista de 1917 afetou a Igreja ortodoxa inteiramente, e pode ser por lá: o quê ela viveu, e o quê ela vive, concerne outros cristãos do mundo e , ainda mais longe, todos os homens.

Em efeito, o quê se passou em 1917 na Rússia foi o fim brutal e sangrento de uma situação multi-secular. Parece-me importante não esquecer que a queda do Império russo não passou de um acontecimento puramente político. Trata-se da supressão repentina, e talvez para sempre, duma situação na e da Igreja, vista por muitos, como quase que perfeita: o império cristão.

Depois da queda de Constantinopla em 1453, aos olhos de muitos ortodoxos o archote de Bizâncio foi retomado, pouco tempo depois, pelo que devia vir a ser o Império da Rússia. Ora, ainda uma vez, aos olhos de muitos ortodoxos, a célebre “sinfonia” bizantina é a existência ideal para a Igreja daqui de baixo: o casamento perfeito entre a Igreja e o Império cristão, onde o Imperador, enquanto primeiro leigo da Igreja (leigo no sentido nobre, ativo), é tão responsável pela fé e pela vida da Igreja como o patriarca e o episcopado.

Isto é a tal ponto a convicção íntima de muitos ortodoxos, sobretudo russos, para os quais o Império é uma realidade perfeitamente recente, que não somente consideram esta situação político-religiosa como uma imagem do Reino celeste mas, como sugeria um teólogo ortodoxo falecido recentemente, o Padre Alexandre Schmemann, eles invertem a proposição e pensam, quase que conscientemente, que o Reino dos Céus será necessariamente à imagem do Império sinfônico de tipo bizantino. (A maioria dos ortodoxos que conhecei aqui, não são a este respeito, representativos).

É o desabamento repentino desta situação considerada como imutável e representando com sorte de garantia a perenidade do ideal bizantino, que a Igreja ortodoxa do mundo inteiro assistiu.

A Igreja Ortodoxa Russa, de sua parte, se encontrava repentinamente desapossada de uma situação que havia tendência a se instalar desde um pouco mais de 200 anos: Igreja do Estado mais ou menos funcionalizada, seu Santo Sínodo tornara-se um ministério do Estado dentre os outros, com um ministro leigo na maior parte do tempo. O clero é uma classe social à parte (é-se geralmente padre de pai a filho); devemos ser membros nominalmente da Igreja (com obrigação pelos funcionários de realizar um mínimo de dever religioso). Em outros termos, presidíamos a uma situação mais ou menos secularizada no sentido da secularização lenta, questionada mais acima.

Com certeza, só evoco aqui aspectos negativos de uma situação da Igreja russa que tinha outras coisas a dizer. O período dito “sinodal” da Igreja russa viu outras coisas positivas: o resplandecer de um São Serafim de Sarov, o renascimento de pensamento religioso e dos estudos patrísticos, a Filocalia, o concílio de 1917, a vinda ao cristianismo de socialistas marxistas ou marxizantes – Serguei Bulgakov, Nicolas Berdiaev, Georges Fedotov – que trouxeram com eles, do socialismo, a preocupação social e então política.

De um dia ou outro, a Igreja se encontrou privada de todos os seus privilégios e, sobretudo confrontada a uma questão crucial: a Igreja está ligada até a identificação com o Estado “cristão” que vinha de desaparecer? Se sim, ela não pode mais existir sob o novo regime ateu e perseguidor. (Alguns o pensaram e continuam ainda a pensar).

Todavia, dentre os responsáveis da Igreja russa que sobreviveram às execuções, aos emprisionamentos e à deportação, muitos compreenderam que não somente a Igreja da Rússia não estava identificada ao Império, o quanto cristão que ele fosse, mas se lembraram e descobriram que a Igreja, em todos os tempos e em todos os lugares não pode se identificar com nenhum regime sócio-político, porque ela não é deste mundo. Em contrapartida, compreenderam que ela pode e deve existir sob não importa qual regime sócio-político (que seja até anticristão) porque ela é chamada a existir para a salvação do mundo, e não para o seu bem-estar interno.

A respeito disto, é interessante constatar que um dos bispos que tomaram em mãos os afazeres da Igreja após a morte do Patriarca Tikhon, o futuro Patriarca Sérgio, havia dito a seus estudantes desde 1905 que a Igreja não podia em caso algum se identificar a uma situação sócio-política qualquer e, por conseguinte, “se instalar” nela. É ele também que diz com nitidez, pouco depois de 1925, que o marxismo e o cristianismo eram filosoficamente incompatíveis (antropologia), mas que um cristão podia ser um cidadão leal de seu próprio país, sendo este ou marxista ou ateu.

Em seguida, a Igreja na Rússia estava ao preço de sangue dos mártires e também, é necessário dizer, ao preço dos compromissos da parte dos responsáveis (geralmente contrários e forçados a discursarem mentiras). E portanto esta Igreja reduzida ao silêncio por um regime que prega uma sociedade totalmente secularizada, encontra (em seu silêncio) um papel profético no seio desta sociedade. O admirável trabalho que fazem um grandíssimo número de pastores (bispos e padres) por detrás das cortinas da mentira traz frutos: cada vez mais as gentes vêem pedir o batismo nesta Igreja, numa idade onde nos perguntamos acerca da morte e do verdadeiro sentido da vida. A educação recebida, o marxismo-leninismo não tem nada a oferecer.

A partir do exemplo da Igreja russa, os outros ortodoxos quase todos tiraram uma lição vital: o lembrete, sem dúvida, quisto por Deus, que a Igreja não é identificável a nenhuma situação sócio-política e que ela é, por conseguinte, chamada a esclarecer todas as situações sócio-políticas: que o esclarecimento, ou o testemunho pode ter formas diversas, segundo as situações sócio-políticas (e segundo também a vocação de cada um) indo da predicação sobre os tetos, ao silêncio onde somente o comportamento testemunha de Cristo.

No que concerne aos ortodoxos vivendo em minoria, geralmente enfermos, em países onde, com os outros cristãos, são confrontados à sociedade que se seculariza de maneira menos militante que nos países do Leste, foram eles também obrigados a tomarem algumas lições de história. Desraigados de partida, minoritários em seguida, tiveram a escolha entre a vida fechada em um gueto bem protegido no meio de um mundo no qual participamos (ou recusamos participar) “por outro lugar” (quer dizer, fora de seu cristianismo ortodoxo) e o encontro com os outros cristãos (e os não cristãos), o que implica a questão fundamental: o que faz a própria essência íntima do cristianismo ortodoxo?

Se a resposta é uma identificação nostálgica deste cristianismo com uma situação geográfica, política, étnica e cultural, então não há verdadeiro encontro: existe somente uma confrontação comparativa. Se a resposta não é esta identificação, então ela conduz à necessidade de distinguir o secundário do fundamental. Ela leva a uma redescoberta, por um processo de humildade, de despojamento, de kenosis da Igreja a partir de sua natureza mais profunda: o anúncio da Boa Nova do Cristo morto e ressuscitado que oferece a todos os homens a participação à vida nova. A Igreja, o Corpo de Cristo, é o local (não geográfico) onde esta participação já é possível. Consequentemente, seu lugar no mundo é aquele do coração desta vida nova já invisivelmente e misteriosamente presente. Seu papel é o de descobrir no senso profundo do “uncover”, de desvendar, em todas as situações, em todos os sofrimentos humanos o esclarecer divino.

O papel profético da Igreja não é o de predizer o porvir (prometendo um mundo melhor para amanhã). Um bispo da Igreja da Inglaterra do XVII século, Lancelot Andrewes, grande pregador, dizia que no Antigo Testamento, quando o Espírito Santo falava aos profetas, Ele anunciava o Cristo; no Novo Testamento, a profecia, é o Espírito Santo que fala pelos predicadores (todos aqueles que de uma maneira ou de outra anunciam a Boa Nova) e não é mais a predicação do porvir, mas a abertura, a descoberta, de cada situação em sua dimensão divina, em seu esclarecimento divino. Pois que toda situação é susceptível de ser transfigurada quando nós (a Igreja) nos lembramos pelas nossas palavras e pela nossa vida (por vezes pelo preço de nossa vida) que o homem é à imagem de Deus e que por conseqüência, ele responde, a cada instante, enquanto sacerdote e rei, a tudo o que Deus criou. Em primeiro lugar, pelos homens, nossos contemporâneos.

Nosso papel na sociedade secularizada, não é antes de tudo o de mudar as estruturas para que elas mudem o homem. Nosso papel é o de buscar deixar Deus falar a cada ser humano que encontramos para que em sua situação, em seu sofrimento, em sua alegria, ele descubra que ele é à imagem de Deus e amado de Deus, e que se ponha também a difundir o resplendor desta descoberta em torno de si. Assim então as estruturas podem, elas também, melhorar, em conseqüência de uma maior consciência dos seres humanos.

Quanto as nossas estruturas na Igreja, no estado atual do mundo secularizado, tenderiam pela fraqueza humana a se secularizarem, elas também, e a tornarem-se por ai mais um objeto de escândalo do que um instrumento de salvação. A nós cabe-nos lembrar-se, com uma memória ativa, que nossas estruturas devem refletir a natureza profunda da Igreja, Corpo de Cristo, imagem do Pai e portadora do Espírito Santo. Consequentemente, não podem elas ser carismáticas e jamais políticas. Não são estruturas de poder. Hierarquia não é dominação. Se na humildade, na kenosis, nossas estruturas de Igreja não deixam de tornar-se carismáticas, no próprio sentido, quer dizer, vividas como o exercício em Igreja dos dons do Espírito Santo, podem tornar-se um sinal profético para o mundo que crê.

Eu gostaria de acrescentar que para nós ortodoxos, a este respeito, o desafio ecumênico é particularmente precioso. Ele deveria nos forçar a nos recordarmos de maneira permanente e sempre renovada da verdadeira natureza da Ortodoxia, aquela que subsiste no melhor de nosso ensinamento e é nada além do que a fidelidade à fé católica e apostólica. Ele deveria, então, nos forçar a nos reconverteremos perpetuamente à pureza da Ortodoxia, em nossa existência histórica tanto quanto em nosso ensinamento.

 
por Nicolas Lossky
Fonte: Contacts – revue française de l´orthodoxie XXXVIII année –
nº136 / 4e trimestre 1986

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