Perdão e reconciliação: qual a diferença?


Cristo - A Vinha Verdadeira
"Permanecei em Mim"



“Será que entendemos todos, claramente, o tipo de responsabilidade que tomamos sobre nós mesmos? Infelizmente, para alguns dentre nós este rito, em movimento, geralmente toma o caráter de uma performance de perdão mútuo.”
 Arquimandrita Joan (Krestiankin)


A tradição de pedir perdão no último Domingo antes da Grande Quaresma remonta aos tempos antigos do monasticado do Egito. Suas vidas não eram fáceis: ao sairem para o deserto durante os 40 dias da Quaresma, ninguém tinha certeza se retornaria de sua solitude. Todavia, deviam pedir perdão um ao outro antes de partirem, tal como a prática anterior à morte.

Sabemos o que é o verdadeiro e profundo perdão? Como ele se difere de reconciliação? Como se preparar para o Domingo do Perdão e para o Rito de Perdão da Igreja, de uma maneira que não se reduza a um puro formalismo? O Sacerdote Andrei Lorgus, Reitor do Instituto de Psicologia Cristã, responde a estas questões.

Reconciliação e perdão são duas coisas diferentes.

Reconciliação pode ser realizada de várias maneiras, inclusive através de meios materiais. Posso causar um dano a outra pessoa e subsequentemente reconciliar-me com ela através de alguma ação de natureza sacrificial: Podendo lhe dar dinheiro ou prover-lhe com um serviço, no intuito de reconciliação. Mas isto não será nem perdão nem arrependimento.

Da mesma forma, a Igreja tem, todavia,  em mente não a reconciliação, mas o perdão: no entanto, não só receber perdão, e sim pedir também. No Domingo do Perdão é mais importante oferecer perdão a alguém – dizer, “Perdoa-me!” – do que receber perdão.

Penso que a antiga tradição de se pedir perdão um ao outro antes da Grande Quaresma implicava primariamente nesta metade, nesta parte: não em reconciliação, não em receber perdão, mas nominamente, em pedir perdão. É claro, este pedido combina tanto o arrependimento pessoal com o pedir algo a alguém, enquanto o mais importante não estava pontencializado em pedir-lhe perdão, mas antes em reconciliar-se com ele em um só espírito. Mesmo se esta pessoa é desagradável, mesmo se esta pessoa me deseja prejudicar, mesmo se esta pessoa está pronta a manipular-me e rir de mim.... eu preciso disto!

Pedir-lhe perdão e tornar-se internamente reconciliado: Eu preciso disto; este é o meu exercício espiritual; este é o início do meu arrependimento da Quaresma.

É verdade que muito geralmente as pessoas pensam que se eu pedir perdão a alguém, fico ainda lhe devendo alguma coisa: que depois disto preciso tornar-me seu amigo, ficar próximo dele, preciso tornar-me familiar a ele. Mas isto é perigoso. E se ele começar de novo a rir de mim, a debochar-me, a humilhar-me? Devemos ter em mente que pedir perdão, reconciliar-se com outra pessoa num mesmo espírito, não implica comunicar-se com ela doravante, porque a decisão de reconciliar-se internamente não corresponde à decisão de levar, de certa forma, uma relação próxima com ele, em seguida.

Posso pedir perdão, decidindo no entanto em mim que não tenho mais nada com esta pessoa, por ela ser perigosa e querer debochar-me ou simplesmente porque não vejo mais nenhuma expectativa de comunicação. Esta é uma decisão minha e também minha responsabilidade. Todavia, o perdão, de maneira alguma, requer que me torne próximo a esta pessoa.

Mas se for uma pessoa amada – e, como uma regra, pecamos acima de tudo contra nossos amados e parentes – então não devemos entrar na questão de uma divisão ou desavença, afastamento. Não existe lugar algum para se ir. Família é sempre família.

Isto, com certeza, requer um compromisso interno não somente em pedir perdão, mas também em tornar-se reconciliado, restaurar seu amor pelo outro em um mesmo espírito e aproximar-se num único amor, até o tempo em que estiver lá. Quando isto acontece com aqueles que amamos, o amor já existe e se faz presente; significa que devemos, de alguma maneira, purificar este amor, aproximar-se a ele de alguma forma, encontrar novos meios para viver com esta pessoa. Isto, penso eu, é o mais importante.

1) E se alguém pensar: “Bom, é suposto que eu o tenha perdoado em minha alma,” mas decide não dizer uma palavra em guisa de reconciliação. A que ponto isto é correto? Quão distante estamos de um real sucesso?

Isto, com certeza, é evitar qualquer real sucesso, e realmente até a própria vida. É como se eu visse um delicioso prato na mesa e o comesse com minha alma. Na verdade, vou continuar com fome. É exatamente a mesma coisa.

2) O que devemos fazer se não nos sentimos culpados, mas uma pessoa amada nos leva a pedir perdão, manipulando-nos e colocando em questão nosso futuro relacionamento?

Leva-nos? Não, isto é impossível. A decisão de perdão e de reconciliação com esta pessoa nasce no coração; ninguém pode me forçar a fazer isto.

Pode ser outra estória se houverem circunstâncias especiais, se por razões legais alguém precisa oferecer arrependimento ou buscar reconciliar-se através do jornal. Mas isto é outra estória. Entenda que isto não é perdão.

Não pode haver perdão sincero onde houver manipulação; antes da Quaresma estávamos falando sobre perdão sincero e sincera reconciliação interna, porque toda a Grande Quaresma, estritamente, existe por esta razão.

A Grande Quaresma não são coisas formais, mas coisas internas; somente para si mesmo.

A propósito, a tradição de um Rito geral de Perdão é muito difícil neste sentido, porque uma coisa é pedir perdão àqueles que amamos, e outra, completamente diferente, a todos aqueles que se encontram na igreja. Pelo menos 80% das pessoas na igreja nunca tiveram nada comigo. Neste caso, peço-lhes perdão formalmente, mas isto é somente um rito formal. É justamente isto que leva muitas pessoas à tentação, a partir do momento em que se apresenta como uma formalidade.

Esta é também uma tentação para os Padres, a propósito, a partir do momento em que diferentes paróquias de diferentes regiões de Moscou e mesmo até de cidades diferentes, aparecem de repente e também pedem perdão, sendo no entanto a única vez em suas vidas que se encontram. É claro que isto tem um significado simbólico, mas não, certamente, num sentido literal ou substancial. O Rito do Perdão existe para diferentes fins. Estas são coisas diferentes.

O Rito geral do Perdão tem, com certeza, um caráter formal. A igreja está aberta para qualquer um, nossa paróquia não tem limites claramente definidos, os paroquianos não pertencem somente a uma paróquia, e ainda, todos os tipos de pessoas podem se dirigir para o Rito do Perdão. E, reciprocamente, pode acontecer que aqueles que são muito importantes para mim não estejam lá.

Todavia, ao celebrarmos o Rito do Perdão, oferecemos a possibilidade para qualquer um de dele participar abertamente. Cada pessoa pode independentemente determinar seu significado interior deste evento para si próprio. Ele pode, em seguida, tomar o rito no interior de seu coração e levá-lo para casa, chamar seus próximos e amados e pedir-lhes perdão.

Mas isto não dispensa ninguém da necessidade de participação ao Rito do Perdão para si próprio, formalmente, mas antes substancialmente, essencial e fundamentalmente. Isto significa que devemos nos preparar para isto. Significa que precisamos pensar antes do tempo sobre com quem se deve reconciliar e a quem devemos pedir perdão. Com certeza, quando alguém se prepara, ele precisa colocar primeiro e antes de tudo a mais pesada transgressão que cometeu para com alguém, a relação mais difícil, e então descer em ordem. Isto é o que mais requer esforço.

Falando generalizadamente, a principal parte do perdão é preparação: decidindo que “sim, eu quero me reconciliar com esta pessoa, arrepender-me diante dele e lhe pedir perdão.” Em segundo plano, existe o feeling de onde esta decisão nasce: este é o feeling do arrependimento, o desejo pela reconciliação, o desejo de pedir perdão.

É este desejo interior, quando surgido, que oferece a esperança de que o Rito do Perdão terá um sentido, sendo substancial.

por Lida Sideleva

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