A crise econômica na Grécia é o resultado da mudança dos valores morais e espirituais



Arcebispo Anastásio (Yanoulatos)
Primaz da Igreja Ortodoxa na Albânia
            O sujeito predominante, atualmente, é a crise econômica. Habitualmente acompanhdo pelo abatimento, a melancolia e o pessimismo. Apesar disto, a crise pode tornar-se uma ocasião para a redescoberta dos tesouros dos valores de nosso povo, que podem nos guiar ao caminho da recuperação. Todavia, para atingi-lo, uma séria auto-crítica faz-se necessária. Infelizmente, o significado da palavra “crise” foi alterado. No lugar de conduzir ao reconhecimento honesto de nossas faltas, esta palavra é utilizada para sublinhar aquelas dos outros. Se as faltas dos dirigentes políticos e econômicos são indubitáveis, é nos necessário tomar consciência daquelas que fizemos enquanto povo, bem como de nossas violações pessoais. Seguramente, não saberíamos dizer que todos, coletivamente, têm as mesmas responsabilidades na crise.

            Grande parte do povo grego é vítima e não profitou da prosperidade com o dinheiro emprestado. Todavia, vendo  mais de perto, a maioria dentre nós pode descobrir erros e faltas, ao  não resistirmos à anarquia generalizada e à delinquência flagrante. Esta auto-crítica é, no entanto, insuficiente. É necessário ainda arrependimento. Para muitos, esta palvra está em “desuso”.

            Ora, ele permanece atual, através de todas as épocas, e “revolucionário”, desde que Cristo manifesta-o como o núcleo do Evangelho: “Arrependei-vos” – quer dizer, mudai a vossa mente, vossa conduta, e é assim que devemos abordar a vida. É somente mudando nossos espíritos e nossos corações que poderemos fazer cessar os hábitos e as paixões que tornam nossa sociedade doente: a mentira sob diversas formas, o roubo direto ou indireto, a malversação de fundos, a opulência, o egoismo, a falta de medida, as batotas, as pequenas e grandes evasões fiscais, que terminaram por serem consideradas como “um bem necessário”, ou mais cinicamente, “uma necessidade para o nosso bem”.

            Além disso, é tempo de tomar consciência de que fomos indiferentes à boa educação de nossas crianças e nossos jovens, e que não lhes demos um bom exemplo. No lugar da verdadeira educação, impusemos a utilização da tecnologia e a simples memorização dos conhecimentos. Esta frase de T. S. Eliot soa de maneira apocalíptica:

“Onde está a vida que perdemos vivendo?

Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?

Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”


A maioria das mídias, tendo como critério o proveito financeiro, se encontraram em competição para promover os modelos negativos. Eles passarm sob silêncio – quando não ironizaram a seu sujeito – a honestidade, a temperança, a paciência, o sacrifício de si. Tudo isto, manifestamente ou inconscientemente, foi considerado como “religioso”, adaptado às outras épocas e não aquela do capitalismo real, que venera a riqueza, o prazer, o poder, a felicidade aparente. Em suma, nossa crise econômica é o resultado da mudança dos valores morais e espirituais.

Em particular, esquecemos que estes valores espirituais em nosso país germinaram a partir da Tradição cristã Ortodoxa. Dostoievski menciona: “Se Deus não existe, tudo é permitido”; Alguns círculos “snobaram” esta fé ortodoxa. Eles procuraram desenrraízar seu ethos, mantendo somente algumas “práticas religiosas”. E adicionando cinicamente: “Mesmo se Deus existe, tudo é praticamente permitido para nós”. Todavia, a crise que nos abala não é, longe disto, uma “maldição”. Ela constitui uma grande oportunidade para encontrar o quê há de mais profundo, de melhor em nós-mesmos. Não é a primeira vez que o povo grego passa por uma crise.

Basta recordar-se de tudo que atravessamos no passado: o desenraizamento da Ásia Menor, as guerras mundiais, a ocupação e que o se seguiu. Em sua ocorrência, virtudes raras emergiram, ocultas no coração de nosso povo: a paciência, a generosidade, a coragem, a confiança em Deus, a unanimidade, a solidariedade, o otimismo, ver o humor e o sorriso. Nestas disposições, as adversidades conhecidas e desconhecidas foram ultrapassadas.

Estas constituem também anticorpos preciosos as tristes tendências de nosso corpo social. Alguns, competentes em economia e política, indicaram meios de sair da provação. Pessoalmente, penso que para se exceder radicalemente à crise mais geral, ética e espiritual que vem ao grande dia, é imperativo que revisemos principalmente nossa maneira de pensar e de nos conduzir, tomando como guia os princípios cristãos seculares: a fé, a esperança e a caridade: E “o amor perfeito bane o temor” (I Jo. IV, 18).


pelo Arcebispo Anastásio Yanoulatos

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